quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Estaria o socialismo verdadeiramente superado?

Por meu caríssimo amigo e Professor Carlos-Magno Esteves Vasconcellos

Depois das grandes reformas econômicas introduzidas na China “comunista” por Deng Xiaoping, no final da década de 1970, e da desintegração do “socialismo Soviético” impulsionada pela Glasnost e a Perestroika de Mikhail Gorbachev, em meados da década de 1980, parece que a bola da vez é o “socialismo cubano”. Contudo, diferentemente das experiências chinesa e soviética, onde os timoneiros das lutas revolucionárias (Mao, no caso da China, Lênin e Stalin, no caso soviético) já tinham sido enterrados e, portanto, foram poupados da condição de espectadores do desmantelamento da obra que ajudaram a criar, na Cuba de hoje o grande líder e ícone da “revolução socialista”, Fidel Castro, continua vivo e politicamente influente nas reformas que estão em curso na ilha caribenha.

Esta particularidade do caso cubano talvez explique, pelo menos em parte, a polêmica declaração de Castro em entrevista concedida ao jornalista norte-americano Jeffrey Goldberg na semana passada. Como noticiado pela imprensa brasileira, Castro teria afirmado ao articulista da revista The Atlantic que “o modelo cubano não funciona mais nem para Cuba”. É verdade que um dia após a primeira declaração, Castro voltou a se manifestar sobre o assunto, explicando que suas palavras foram equivocadamente interpretadas pelo jornalista norte-americano que não entendera o tom irônico de suas palavras. Mas, a primeira declaração do ícone da Revolução Cubana parece muito mais em conformidade com as reformas econômicas e ideológicas que vinham sendo realizadas em Cuba, há cerca de pelo menos 10 anos, e que estão sendo intensificadas desde 2008 com a chegada de Raul Castro ao comando do país.

A posição de Fidel Castro diante da nova realidade cubana é no mínimo incômoda. Depois de liderar uma revolução em nome da supressão do atraso e do subdesenvolvimento econômico, da pilhagem externa e da violência social a que o capitalismo internacional impunha ao país, agora é obrigado a reconhecer que não há alternativa ao sistema do capital. Stalin e Mao Zedong, por exemplo, foram poupados desta humilhação. Mas Fidel terá de enfrentar essa humilhação sem perder a compostura, a fim de preservar a imagem de “herói” latino-americano. A tarefa é árdua, e os discursos contraditórios e revisionistas vão se suceder com grande regularidade numa tentativa absurda de compatibilizar socialismo com capitalismo (Deng Xiaoping, herdeiro ideológico e político de Mao Zedong, na China, resolveu esse problema através de um jogo de palavras astucioso que deu origem à retórica do “socialismo de mercado”).

As mudanças ora em curso em Cuba são inexoráveis. Elas não são apenas o resultado de pressões sociais por melhores condições de vida e democracia política, mas, principalmente, o resultado da incapacidade da Revolução Cubana em introduzir o socialismo em Cuba. Esta frustração da sociedade cubana com os rumos da Revolução também precedeu as grandes mudanças introduzidas na China e na União Soviética. As “revoluções socialistas” do século XX estiveram, desde seu começo, inspiradas pela consciência social e pelos anseios legítimos dos povos revolucionários em superar o modelo violento de relações sociais que lhes era imposto pelo capitalismo. Mas, no intervalo de tempo que separou os movimentos revolucionários da construção do socialismo o sonho de uma sociedade solidária, onde o homem deixaria a condição de objeto para assumir a condição de sujeito econômico e político foi se esmigalhando.

Confrontadas com as condições econômicas e sociais adversas, no plano nacional, e com a hostilidade política externa, as “revoluções socialistas” do século XX se degeneraram em uma forma nova e peculiar de capitalismo, fundado na propriedade estatal dos meios de produção: o capitalismo burocrático totalitário. É esta forma peculiar de capitalismo que está se desmantelando em Cuba.
As mudanças econômicas e políticas ora em curso no país de Fidel Castro não testemunham da superação do socialismo, mas tornam o capitalismo burguês clássico, fundado na propriedade privada e na apropriação privada da riqueza social, o modelo hegemônico de capitalismo. Hoje, o mundo todo é capitalista: Estados Unidos, França, Alemanha, Japão, China, Rússia, Brasil, Cuba, etc... Vivemos a época do capitalismo globalizado. Mas, a hegemonia absoluta do capitalismo faz prosperar também todos os flagelos econômicos, sociais, políticos e culturais inerentes a este modo de organização da vida social, e abre caminho para o renascimento do sonho socialista. A história ainda não terminou!

Carlos-Magno Esteves Vasconcellos é doutor em Economia e professor titular de Economia Política Internacional do Curso de Relações Internacionais do UniCuritiba.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Uma bela passagem de Machadinho.

O Capítulo IX de Dom Casmurro
A ópera
Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha."O desuso é que me faz mal", acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia. As vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto: vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:
-A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...
-Mas, meu caro Marcolini...
-Quê...?
E depois, de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu - , compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
-Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
-Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
-Mas, Senhor...
-Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
-Ouvi agora alguns ensaios!
-Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem c mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
-Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos os escolhidos". Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
--Tem graça...
--Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia. quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o , e do fez-se , etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...
De Dom Casmurro

Começo a entender...

LVII

A une madone

EX- VOTO DANS LE GOÛT ESPAGNOL

Je veux bâtir pour toi, Madone, ma maîtresse,
Un autel souterrain au fond de ma détresse,
Et creuser dans le coin le plus noir de mon coeur,
Loin du désir mondain et du regard moqueur,
Une niche, d'azur et d'or tout émaillée,
Où tu te dresseras, Statue émerveillée.
Avec mes Vers polis, treillis d'un pur métal
Savamment constellé de rimes de cristal,
Je ferai pour ta tête une énorme Couronne;
Et dans ma Jalousie, ô mortelle Madone,
Je saurai te tailler un Manteau, de façon,
Barbare, roide et lourd, et doublé de soupçon,
Qui, comme une guérite, enfermera tes charmes,
Non de Perles brodé, mais de toutes mes Larmes!
Ta Robe, ce sera mon Désir, frémissant,
Onduleux, mon Désir qui monte et qui descend,
Aux pointes se balance, aux vallons se repose,
Et revêt d'un baiser tout ton corps blanc et rose.
Je te ferai de mon Respect de beaux Souliers
De satin, par tes pieds divins humiliés,
Qui, les emprisonnant dans une molle étreinte,
Comme un moule fidèle en garderont l'empreinte.
Si je ne puis, malgré tout mon art diligent,
Pour Marchepied tailler une Lune d'argent,
Je mettrai le Serpent qui me mord les entrailles
Sous tes talons, afin que tu foules et railles,
Reine victorieuse et féconde en rachats,
Ce monstre tout gonflé de haine et de crachats.
Tu verras mes Pensers, rangés comme les Cierges
Devant l'autel fleuri de la Reine des Vierges,
Etoilant de reflets le plafond peint en bleu,
Te regarder toujours avec des yeux de feu;
Et comme tout en moi te chérit et t'admire,
Tout se fera Benjoin, Encens, Oliban, Myrrhe,
Et sans cesse vers toi, sommet blanc et neigeux,
En Vapeurs montera mon Esprit orageux.

Enfin, pour compléter ton rôle de Marie,
Et pour mêler l'amour avec la barbarie,
Volupté noire! des sept Péchés capitaux,
Bourreau plein de remords, je ferai sept Couteaux
Bien affilés, et comme un jongleur insensible,
Prenant le plus profond de ton amour pour cible
Je les planterai tous dans ton Coeur pantelant,
Dans ton Coeur sanglotant, dans ton Coeur ruisselant!

Charles Baudelaire.