domingo, 14 de novembro de 2010

Recentemente.

Um texto muito legal do Fernando Pessoa

Recentemente, entre a poeira de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal a uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga, frequentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.

Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. Como então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.

A coerência , a convicção, a certeza são, além disso, demonstrações evidentes - quantas vezes escusadas - de falta de educação. è uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é macá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.

Uma criatura de nervos modernos de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada, tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter, não crenças religiosas, opiniões políticas, predilecções literárias, mas sensações reigiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.

Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm sobretudo, quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variãrão, como é de entender, consonte esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do ambiente transitório: é republicano de manhã, é monarquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos de anoitecer citadino em que desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo, uma invenção de louco quando, ante uma solidão do mar, ele não souber de mais do que da “Odisseia”.

Convições profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.

Quando é que despertaremos para a justa noção de que a política, a religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética - a estética dos que ainda não a podem ter? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumada às suas sensações a viverem independentemente, se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.

1915

Fernando Pessoa in Os Portugueses - A opinião pública

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O que me deu forças nos últimos tempos,

este:

Invictus

William Ernest Henley

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeoning of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find me, unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

E o filme é muito bonito!

Fuerza, hombre!

Thiago.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Meu amigo Braga falando da Primavera.

VEM A PRIMAVERA
Rubem Braga

Escreve com violência no Cruzeiro meu amigo Genolino Amado contra a Primavera, e o menos que diz dela é que não há. Porque plantar árvores e fazer versos e dizer às crianças e mesmo aos marmanjos: atenção, eis que vem a Primavera – se ela não vem? Ela seria apenas um compasso para a espera do Verão: e é uma tolice comemorar um compasso.

A coisa me atinge, pois tenho cantado a Primavera todo ano, assim como as demais estações, conforme é uso e costume das pessoas que escrevem o ano inteiro, e obedecem as tradições deste ofício. E à força de escrever sobre a Primavera acabei acreditando nela e, quem sabe?, sentindo-a. O que em outros países é fácil e barato, em nossa capital do Brasil é um exercício fino. O homem distraído não vê a Primavera, pois não há neves que se derretam nem campos que se cubram de flores instantâneas. Mas que viver com o nariz no céu bem que a sente; talvez porque o sol ande um pouco para o sul, talvez porque as laranjas dos caminhões fiquem piores e apareçam as jabuticabas, e certas árvores deitem flores, e os peixes nos deixem comer suas ovas, e os dias comecem a florescer mais cedo, e as primeiras cigarras comecem a cantar. Não sei nada dessas coisas, mas que importa se me comove o equinócio e me sinto intimamente confortável porque neste mundo desigual vejo bem repartida a sombra e a luz do dia 23, e sempre há esperança de que falte menos água, e a marcha misteriosa das coisas nos prometa cajus para chupar com cachaça e as primeiras acácias breve comecem a chover ouro sobre a calçada onde passeio minha nefasta melancolia? Só o lavrador sabe as coisas; só o caçador e o pescador, seus irmãos mais velhos, e jamais nós, cujo calendário é o vencimento dos títulos, os invencíveis títulos, que vencem ao sol e à chuva com a mesma triste pressa, a mesma cruel monotonia. Eu e Genolino não plantamos legumes na terra, mas apenas cultivamos estas tristes couves da literatura que são as crônicas; e as dele, muito embora sejam couves-flores, também são, como estas, feitas de palavras vão e não da força da terra e da água do céu. Ai de nós!

Voltarei a contar, em louvor da Primavera que vem no fim do mês, um conto que uma vez li e não sei sequer o nome do autor, Lembro que o mordomo se curva em ângulo reto e anuncia à senhora condessa:

- Com a permissão de V. Exa., a Primavera chegou.

- Diga-lhe que seja bem vinda e pode permanecer três meses em minhas terras. Então vem o primeiro domingo de Primavera. E havia um velho mendigo que tinha uma perna de pau. E todo domingo ele ficava à porta da igreja; e havia uma velhinha que todo domingo, à entrada da missa, dava ao mendigo uma grande moeda de cobre. Naquele domingo entretanto, por ser o primeiro da Primavera, Che deu uma grande moeda de ouro. O mendigo lhe sorriu e lhe ofereceu uma rosa.

- Que rosa tão bela mendigo. Onde a colheu?

- Nasceu em minha perna de pau, senhora.

Não sei se isso comoverá Genolino; é possível, se ele já amou entre as rosas de outubro na Praça da Liberdade de Belo Horizonte ou na Praça Marechal Deodoro, em S. Paulo. Mas lhe peço que me ajude a fazer propaganda da Primavera. Assim, quem sabe, talvez ela exista. Tenho feito previsões erradas sobre esta gentil estação, confesso. Há dois anos, em setembro, escrevia:

“Nas filas de mantimentos todos farão roda e se porão a cantar. E haverá luta nos ônibus: pois Primavera é tão gentil que pela sua influência todos se assanharão de gentileza e todos hão de querer ser um dos 8 em pé:

- Mas, por favor. Mas, faço questão! Oh, senhorita. Oh, cavalheiro! Quero ficar em pé, como sempre vivi! De pé, pela Democracia! De pé, pela Primavera! Irei me sacudindo assim, com o coração acima do estômago, e a cabeça, ainda que tonta, acima do coração!”

Previ também que os padeiros e açougueiros fariam fila à porta dos edifícios, e muitas outras coisas, terminando assim. “Iremos para a amplidão dos mares, na volta tomaremos grandes, imortais chuveiradas. Pois na Primavera teremos água, pois na Primavera nascerão fontes líricasdentro do metal das torneiras, e a vida será uma pantomima aquática, de nossas banheiras saltarão peixes-voadores que se porão a cantar como verdadeiros gaturamos.”

Sim, confesso que errei. Mas porque não acreditar na Primavera? É grátis, e para acreditar não é preciso fazer fila. Afinal, a verdade é que desde logo a minha varanda tem flores e ali atrás do Ministério do Trabalho, entre o horrível Ministério da Fazenda e a lagoa com estátua de Rio Branco, perto de teu apartamento, ó Genolino, as grandes árvores deitam flores rubras. Acreditemos. E aquele dentre vós que tiver a sua amada, cante com Heitor dos Prazeres:

“Meu amor por ti são flores

Tudo flores naturais...”

E quem não tiver amada, espere, que ela está vindo. Está na esquina, talvez na esquina da praia, talvez na esquina do mês de outubro; bela, sorrindo e coroada de flores ela vem...

Setembro, 1946.
Thiago.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Estaria o socialismo verdadeiramente superado?

Por meu caríssimo amigo e Professor Carlos-Magno Esteves Vasconcellos

Depois das grandes reformas econômicas introduzidas na China “comunista” por Deng Xiaoping, no final da década de 1970, e da desintegração do “socialismo Soviético” impulsionada pela Glasnost e a Perestroika de Mikhail Gorbachev, em meados da década de 1980, parece que a bola da vez é o “socialismo cubano”. Contudo, diferentemente das experiências chinesa e soviética, onde os timoneiros das lutas revolucionárias (Mao, no caso da China, Lênin e Stalin, no caso soviético) já tinham sido enterrados e, portanto, foram poupados da condição de espectadores do desmantelamento da obra que ajudaram a criar, na Cuba de hoje o grande líder e ícone da “revolução socialista”, Fidel Castro, continua vivo e politicamente influente nas reformas que estão em curso na ilha caribenha.

Esta particularidade do caso cubano talvez explique, pelo menos em parte, a polêmica declaração de Castro em entrevista concedida ao jornalista norte-americano Jeffrey Goldberg na semana passada. Como noticiado pela imprensa brasileira, Castro teria afirmado ao articulista da revista The Atlantic que “o modelo cubano não funciona mais nem para Cuba”. É verdade que um dia após a primeira declaração, Castro voltou a se manifestar sobre o assunto, explicando que suas palavras foram equivocadamente interpretadas pelo jornalista norte-americano que não entendera o tom irônico de suas palavras. Mas, a primeira declaração do ícone da Revolução Cubana parece muito mais em conformidade com as reformas econômicas e ideológicas que vinham sendo realizadas em Cuba, há cerca de pelo menos 10 anos, e que estão sendo intensificadas desde 2008 com a chegada de Raul Castro ao comando do país.

A posição de Fidel Castro diante da nova realidade cubana é no mínimo incômoda. Depois de liderar uma revolução em nome da supressão do atraso e do subdesenvolvimento econômico, da pilhagem externa e da violência social a que o capitalismo internacional impunha ao país, agora é obrigado a reconhecer que não há alternativa ao sistema do capital. Stalin e Mao Zedong, por exemplo, foram poupados desta humilhação. Mas Fidel terá de enfrentar essa humilhação sem perder a compostura, a fim de preservar a imagem de “herói” latino-americano. A tarefa é árdua, e os discursos contraditórios e revisionistas vão se suceder com grande regularidade numa tentativa absurda de compatibilizar socialismo com capitalismo (Deng Xiaoping, herdeiro ideológico e político de Mao Zedong, na China, resolveu esse problema através de um jogo de palavras astucioso que deu origem à retórica do “socialismo de mercado”).

As mudanças ora em curso em Cuba são inexoráveis. Elas não são apenas o resultado de pressões sociais por melhores condições de vida e democracia política, mas, principalmente, o resultado da incapacidade da Revolução Cubana em introduzir o socialismo em Cuba. Esta frustração da sociedade cubana com os rumos da Revolução também precedeu as grandes mudanças introduzidas na China e na União Soviética. As “revoluções socialistas” do século XX estiveram, desde seu começo, inspiradas pela consciência social e pelos anseios legítimos dos povos revolucionários em superar o modelo violento de relações sociais que lhes era imposto pelo capitalismo. Mas, no intervalo de tempo que separou os movimentos revolucionários da construção do socialismo o sonho de uma sociedade solidária, onde o homem deixaria a condição de objeto para assumir a condição de sujeito econômico e político foi se esmigalhando.

Confrontadas com as condições econômicas e sociais adversas, no plano nacional, e com a hostilidade política externa, as “revoluções socialistas” do século XX se degeneraram em uma forma nova e peculiar de capitalismo, fundado na propriedade estatal dos meios de produção: o capitalismo burocrático totalitário. É esta forma peculiar de capitalismo que está se desmantelando em Cuba.
As mudanças econômicas e políticas ora em curso no país de Fidel Castro não testemunham da superação do socialismo, mas tornam o capitalismo burguês clássico, fundado na propriedade privada e na apropriação privada da riqueza social, o modelo hegemônico de capitalismo. Hoje, o mundo todo é capitalista: Estados Unidos, França, Alemanha, Japão, China, Rússia, Brasil, Cuba, etc... Vivemos a época do capitalismo globalizado. Mas, a hegemonia absoluta do capitalismo faz prosperar também todos os flagelos econômicos, sociais, políticos e culturais inerentes a este modo de organização da vida social, e abre caminho para o renascimento do sonho socialista. A história ainda não terminou!

Carlos-Magno Esteves Vasconcellos é doutor em Economia e professor titular de Economia Política Internacional do Curso de Relações Internacionais do UniCuritiba.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Uma bela passagem de Machadinho.

O Capítulo IX de Dom Casmurro
A ópera
Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha."O desuso é que me faz mal", acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia. As vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto: vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:
-A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimários, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...
-Mas, meu caro Marcolini...
-Quê...?
E depois, de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu - , compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
-Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
-Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.
-Mas, Senhor...
-Nada! nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
-Ouvi agora alguns ensaios!
-Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem c mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
-Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos os escolhidos". Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
--Tem graça...
--Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia. quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o , e do fez-se , etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...
De Dom Casmurro

Começo a entender...

LVII

A une madone

EX- VOTO DANS LE GOÛT ESPAGNOL

Je veux bâtir pour toi, Madone, ma maîtresse,
Un autel souterrain au fond de ma détresse,
Et creuser dans le coin le plus noir de mon coeur,
Loin du désir mondain et du regard moqueur,
Une niche, d'azur et d'or tout émaillée,
Où tu te dresseras, Statue émerveillée.
Avec mes Vers polis, treillis d'un pur métal
Savamment constellé de rimes de cristal,
Je ferai pour ta tête une énorme Couronne;
Et dans ma Jalousie, ô mortelle Madone,
Je saurai te tailler un Manteau, de façon,
Barbare, roide et lourd, et doublé de soupçon,
Qui, comme une guérite, enfermera tes charmes,
Non de Perles brodé, mais de toutes mes Larmes!
Ta Robe, ce sera mon Désir, frémissant,
Onduleux, mon Désir qui monte et qui descend,
Aux pointes se balance, aux vallons se repose,
Et revêt d'un baiser tout ton corps blanc et rose.
Je te ferai de mon Respect de beaux Souliers
De satin, par tes pieds divins humiliés,
Qui, les emprisonnant dans une molle étreinte,
Comme un moule fidèle en garderont l'empreinte.
Si je ne puis, malgré tout mon art diligent,
Pour Marchepied tailler une Lune d'argent,
Je mettrai le Serpent qui me mord les entrailles
Sous tes talons, afin que tu foules et railles,
Reine victorieuse et féconde en rachats,
Ce monstre tout gonflé de haine et de crachats.
Tu verras mes Pensers, rangés comme les Cierges
Devant l'autel fleuri de la Reine des Vierges,
Etoilant de reflets le plafond peint en bleu,
Te regarder toujours avec des yeux de feu;
Et comme tout en moi te chérit et t'admire,
Tout se fera Benjoin, Encens, Oliban, Myrrhe,
Et sans cesse vers toi, sommet blanc et neigeux,
En Vapeurs montera mon Esprit orageux.

Enfin, pour compléter ton rôle de Marie,
Et pour mêler l'amour avec la barbarie,
Volupté noire! des sept Péchés capitaux,
Bourreau plein de remords, je ferai sept Couteaux
Bien affilés, et comme un jongleur insensible,
Prenant le plus profond de ton amour pour cible
Je les planterai tous dans ton Coeur pantelant,
Dans ton Coeur sanglotant, dans ton Coeur ruisselant!

Charles Baudelaire.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Diario de bordo.

Coloco aqui algo escrito enquanto estive em outros cantos nestas férias. Tá meio parecido com o outro relato, mas é um registro, um olhar diferente, feito sob um outro estado de espírito. "Ai vaí" rs:

"1ª Sexta feira em Cujubim - RO - outro Brasil [era 23 de julho]
Uma tarde escaldante por si só se esquentou ainda mais devido a uma série de acaloradas discussões aquecidas por uma série de proposições, contraposições e ironias. O debate é característica de um grupo de trabalho e, aos poucos, como hoje, venho percebendo que, de fato, somos um grupo.
Trabalhamos juntos, com determinação, para além dos planos. A concentração em torno dos processos que se procura aplicar a uma dada realidade, a um dado lugar é apenas uma impressão a priori. Tal imagem é reflexo de espelhos(representações) opacos, os quais buscam exprimir 'aquilo que não está imundo'. [aquilo que não e o mundo, digo hoje]
Logo, a guinada, ou melhor, a alteração dos parâmetros com que se opera em uma realidade antes desconhecida é (deveria ser) esperada - é algo natural.
Com isso em mente, mesmo que de maneira sutil, buscamos adaptar nossos pãdrões de operação a Cujubim.
Durante a primeira semana cumprimos com nossa parte no trato e à medida que as tarefas iam se cumprindo sentimos a cidade, vivemos a alegria das crianças expressa em seus olhos brilhantes, nos chocamos com os dilemas de seus professores, que a despeito de penarem em meio a uma realidade difícil, levam um sorriso em seus rostos, bem como a disposição para trabalhar por tempos melhores.
Quando há algum tempo para relaxar fico relegado à tormenta dos furacões, das mulheres. Digo:
A fórmula

SUPRESSÃO CONSENSUAL DE DETERMINADAS LIBERDADES INDIVIDUAIS
+
MULHERES VIBRANTES
+ (associada a)
UMA ATMOSFERA DE EXPECTATIVA
resulta = em

DESASTRE. Senão no vento, na terra, no tempo, em mim.

A rotina cansa, mas não é frenética, pois procuro acreditar no sentido de tudo isso entre pernas, olhos, leituras, exposições, caminhadas e conversas animadoras com pessoas de grande alma.

Ah, eu com ela em um barco a vela
Ah, e também os passeios de bicicleta, os testemunhos de quem vive (n)esta realidade. [impagáveis, mesmo]
E, de repente, eu me pego aqui com os raios do soldisputando com uma nuvem grande a chance de se jogar em minha face em um fim de tarde nada peculiar para outros, mas para mim valioso.
Quando este sol bate em meu rosto percebo quão sortudo sou por estar aqui, hoje, desse jeito.
Eu sigo à procura de um motivo motor, de uma razão para seguir.
Parece-me que posso encontrá-la se limpar bem as minhas vistas."
No papel, eu assino e digo que via um caminho luminoso na noite, mas não gostei e tirei agora. É o que escrevi.
(...)
Tá frio, e tá bonito, esse inverno...
Thiago.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Presta atenção, cara!

Disse pro meu colega de quarto:

- Presta atenção, cara! Fiz um poema. Escuta aí!
- Manda!
- Tá! Lá vai:

E, então
um pico de impressão
me fez perder a noção
De súbito, sem objeção
algo, algo veio e drenou
minha atenção

Em uma espiral de tontura
como que em um furacão

Acontecimento alterador de minha percepção
de tempo, de espaço, de sensação (ou sensações!?)
aeroespacial, psico-analítica
político-social
de meu tato, de meu senso, da minha intenção

Uma rápida oscilação
nos índices que me cercam
na importância dos segredos a que me apego
na solidão a que, por vezes, me relego
modifica meus níveis de pressão
incapacitando-me de desempenhar qualquer
medição
detecção
ou
caracterização
de um tal fenômeno
ou mesmo de sua duração

Em posterior reflexão
exercício para clarear a visão
assumo-me familiar à suposição
de que é adorável
o fato de que as impressões venham e vão;
e que virão.

- Moral da história, diz ele: falta de mulher.

E eu ri muito. O que eu ia falar?

Thiago.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

The CujuDream is over.

...what have they done to the earth?
What have they done to our fair sister?
Ravaged and plundered and ripped her and bit her
Stuck her with knives in the side of the dawn
And tied her with fences and dragged her down...
(The Doors, When the music is over)

Os gráficos estão ascendendo.
A cidade está crescendo!
E uma infinidade de ratos roendo
esta
imensidão de vida,
que, apesar de cada vez mais devastada,
um dia ousou se chamar
floresta.

Estou de volta, depois de passar por uma das experiências mais intensas de minha vida, eu cheguei. Venho de um lugar cuja realidade eu intentava apreender e entender apenas, mas que, sem perceber, acabei tomando para mim.

Canso de me reportar no singular sobre dias vivenciados em conjunto. A cada instante, nos momentos em que partilhamos nossas idéias, nossos bons votos, nossas premeditadas contribuições a uma realidade ainda desconhecida aquilo foi vivido coletivamente com pessoas que se tornaram cada vez mais familiares, desde as primeiras impressões de um lugar diferente até o fim. Isso não se deu à toa, não, pois fomos CALORosamente recebidos por todos, especialmente pelo tempo.


Aos poucos vivenciamos os dilemas de pessoas batalhadoras, que se negam a ser prisioneiras das circunstâncias, que não se entregam; pessoas dispostas a trabalhar e com a alegria estampada em suas caras. Isto, esta vontade de viver, esta esperança NOS saltava aos olhos e seus olhos também nos saltavam, principalmente os olhos brilhantes de suas crianças.


Fizemos amigos em CANCUNjubim aproximando-nos de nosso público, recebendo visitas e convites, visitando um recanto. Convivemos com um pessoal que gosta de atenção, de um olhar apreensivo.

AQUELA poeira e AQUELE calor, juntos, iam nos irritando e deixando saudades de uma só vez. A noção de que aquilo era finito fazia-nos pensar em como contribuir com algo mais à vida daquelas pessoas.

As discussões eram eventuais, afinal éramos um grupo e tivemos a sorte de não nos entregarmos ao mal-estar. Eu acho que descobri o porquê disso quando um amigo (ou novo irmão) se referiu a tudo aquilo como “uma convivência de família por 15 dias”. rs Quem sabe seja esta a resposta...

Tudo isso me marcou. Renovei minhas energias para dar conta do que está por vir. Quero sempre preservar o ânimo daqueles acalorados dias de sol e poeira, aqueles sorrisos e o brilho dos olhos em minha face, em minha vida. Quero sempre ter em mente um ideal de simplicidade que descobri ao notar que com bons amigos em torno de uma mesa não existe a necessidade de se preocupar com o tipo de música ou ambiente e até mesmo com a sujeira – pouco, muito pouco, basta para se ser feliz.

Eu não deixarei aquele povo “SANGUE BÃO” sumir de minhas vistas, que sempre estejamos juntos. Faltará o brilho do sol batendo nas meninas naquele belo entardecer, faltarão os repentes e aquelas específicas companhias, mas não me faltarão as boas lembranças.

Agora eu brinco com as palavras finais de Sal Paradise:

“Assim, NO BRASIL, quando o sol se põe e eu sento na velha e arruinada PONTE do rio olhando os longos, longos céus acima de MINHA CIDADE, e posso sentir toda aquela terra rude se derramando numa única, inacreditável vastidão até a AMAZÔNIA e toda aquela estrada seguindo em frente, todas as pessoas sonhando nessa imensidão, e em CUJUBIM eu sei que agora as crianças devem estar chorando na terra onde deixam as crianças chorar, e esta noite as estrelas vão aparecer, você não sabe que Deus é o CRUZEIRO DO SUL? E a estrela do entardecer deve estar morrendo e irradiando sua pálida cintilância sobre a FLORESTA antes da chegada da noite completa que abençoa a terra, escurece todos os rios, recobre os picos e oculta a última CLAREIRA e ninguém, ninguém sabe o que vai acontecer a qualquer pessoa, eu penso naqueles AMIGOS, COM ESPECIAL E DISTINTO CARINHO E EM CADA UM; EU PENSO NELES.”

É uma adaptação do final de ON THE ROAD de Jack Kerouac a Cujubim. rs

E, por fim, uma música pra descontrair, algo que

QUEREMOS SABER, por Cássia Eller: http://www.youtube.com/watch?v=UcLdx_3hge4

Um abraço muito apertado em todos e um beijão pras prendas, com todo o meu carinho e do fundo de minha alma,

Thiago.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sim.

Sim, eu estava lá. Vi você ali, em minha frente, com o mesmo ar de pureza de quando te apresentastes a mim antes de nos conhecermos. Foi uma experiência estranha, te ver e nada falar, sem a ninguém me reportar e isso foi muito bom para refazer a imagem de ti em meus pensamentos. Continuas radiante, sabias?
Não me atrevi a falar con usted naquele dia e sabes bem o motivo. Mas eu devo admitir que não estava bem, havia pego um desses vírus da gripe que levam muitas pessoas. Aquilo me deixou cansado e enfermo.
Eu mal me animava e retornava àquele estado letárgico, chegando a não querer sair do chão por um instante. Melhorei de um dia para o outro após ter recorrido aos serviços médicos recomendados por nossa organização civilizacional, sem pensar se valia a pena seguir com tudo isso. Do jeitinho que os médicos gostam, meu bem.
E digo, nada como uma doença para percebermos bem quem somos de fato. Havia o suporte de amigos em meio a sonos delirantes, uma inusitada ausência de apetite e uma falta de disposição para pensar. Um emaranhado de palavras dispersas e pensamentos soltos.
Sim. Aprendi muito nos últimos dias enquanto navegava por outros cantos. Há quem diga que caí doente por você, em chiste, claro - e também não direi que não tenha sido. Confesso que, com as devidas ressalvas, deixei-me levar. No entanto, não cheguei a pensar em reportar-me a pessoa alguma, estava tudo muito bem, ora bolas! Talvez não tivesse sido a hora.
Aquela espontaneidade e vontade de dizer as coisas é coisa minha, que aprendi nos últimos tempos, pra não deixar nada por dizer, nada engasgado - um problema constante em meu convívio nos últimos tempos. Pode assustar, não nego, mas fiz!
Quero que saibas, que para mim fostes uma outra jóia (e de luxo!). Desde o momento em que te vi brilhar só quis ter-te em minhas mãos. Até mesmo comparo as ocasiões, como a primeira, quando passei por ti como se passa em uma vitrine e nos outros momentos em que tu te mostrastes. Bem entendes...
Já conheces o texto que virá abaixo.
No mais eu digo, continuo en train de roder sur la tempête tout seul, mas é a primeira vez em que encontro um um caminho nessa falta de lógica ou de senso. A primeira vez em que me sinto seguro em não pensar no que está por vir. E que venha!

Aí vai o texto:

A Viajante

Rubem Braga


Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá.

Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.

Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio — você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.

Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.

Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde - torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.

Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.

Rio, abril de 1952.

Texto extraído do livro "A Borboleta Amarela", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1963, pág. 145.

http://www.youtube.com/watch?v=cmC3DROrBgo

Beijos pras prendas, com muito carinho e só para elas,

Thiago.

domingo, 13 de junho de 2010

Qual é o plural de etanol?

Chegando do Contestado, uma parte apagada da história de nós paranaenses. Porém, presente de maneira escancarada no entorno de nossas convivências, basta fazer algumas conexões para notar. Eu enfatizo por ter bons amigos vindos das terras contestadas.
Embora muito sangue tenha sido derramado a cada dormente de estrada de ferro ou km de asfalto das várias estradas que conduzem nossas vidas, para a nossa geração o mundo parece ser uma constância de paz, sem ligações com o passado. Tomar consciência desses laços é muito difícil e foi no que me concentri durante o fim de semana. Muitas vidas se perderam no Contestado e não se deve esquecê-las.
Bem, paro por aqui com o pouquíssimo que sei. Deixo para o Sr. Nilson Fraga ensinar a mim e a muitos outros sobre este tema excuso da História de nosso país.
A viagem foi muito legal. O contato com um pessoal novo é sempre bom. No percurso eu ri muito e fiz sucesso. (!)
No mais deixo alguma coisa do Charles Baudelaire, que li na viagem e me arrepiou os pêlos:

XLIX
Le poison

Le vin sait revêtir le plus sordide bouge
D'un luxe miraculeux,
Et fait surgir plus d'un portique fabuleux
Dans l'or de sa vapeur rouge,
Comme un soleil couchant dans un ciel nébuleux.

L'opium agrandit ce qui n'a pas de bornes,
Allonge l'illimité,
Approfondit le temps, creuse la volupté,
Et des plaisirs noirs et mornes,
Remplit l'âme au-delà de sa capacité.

Tout cela ne vaut pas le poison qui découle
De tes yeux, de tes yeux verts,
Lacs où mon âme tremble et se voit à l'envers...
Mes songes viennent en foule
Pour se désalterer à ces gouffres amers.

Tout cela ne vaut pas le terrible prodige
De ta salive qui mord,
Qui plonge dans l'oubli mon âme sans remord,
Et, charriant le vertige,
La roulle déffaillante aux rives de ma mort!

É um verso das Flores do Mal, aí vai a tradução: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/charles-baudelaire/o-veneno.php

(anda batendo forte!)

E uma música aí. "Tu me fais tourner la tête..."
http://www.youtube.com/watch?v=_bENc07ISDA

Ah, e que torçamos pelo Brasil com garra em todos os dias!

Aliás, o plural de etanol é EEEEETA Nóis!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Abraço pros manos e beijos pras prendas.

Thiago.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sra. Becker e Sr. Sachs trocando figurinhas.

O protocolo de Kyoto é muy comentado.
Eu hoje lhes trago duas abordagens que dialogam sobre este tema.
Passandopor cima do cavalheirismo, deixemos o senhor Ignacy Sachs nos contar algo:

O protocolo de Kyoto deu início aos assim chamados mercados de créditos de carbono, um esquema que recentemente foi objeto de críticas legítimas. A construção artificial desses mercados depende da alocação inicial de quotas de emissão de gases de efeito-estufa às empresas poluidoras. Estas podem vender os créditos não utilizados às empresas que ultrapassaram a sua quota. A outorga de quotas por demais generosas equivale a oferecer às empresas poluidoras um lucro extraordinário provindo da venda da quota não consumida, o que tem ocorrido com freqüência na Europa. Um outro tipo de efeito perverso aconteceu com as usinas geradoras de energia elétrica que tiveram que recorrer ao mercado de créditos de carbono, mas, graças à sua posição monopolística, puderam transferir o custo adicional aos consumidores. Assim, estes passaram a financiar o direito a poluir dos fornecedores de energia elétrica .

Ele faz uma nota:
Ver sobre o assunto o artigo do correspondente ambiental do Guardian, David Adam, “Britain’s worst polluters set for windfall of millions”, 12 de setembro 2008. Ver ainda, para uma crítica fundamental e bem humorada do Mecanismo de Produção Limpa, o livro de George Monbiot, Heat – How to Stop the Planet Burning, Penguin Books, London, 2007: “Just as in the fifteenth and sixteenth centuries, you could sleep with your sister, kill and lie without fear of eternal damnation, today you can leave your windows open while the heating is on, drive and fly without endangering the climate, as long as you give your ducats to one of the companies selling indulgences. There is even a provision of the Kyoto Protocol permitting Nations to increase their official production of pollutants by paying for carbon-cutting projects in other countries.” (p.210)
"Arriscando na tradução temos: Como nos séculos XV e XVI, quando você poderia dormir com sua irmã, matar e mentir sem medo da danação eterna, hoje você pode deixar suas janelas abertas quando está muito quente, dirigir e voar sem interferir perigosamente no clima, contando que dê seus ducados a uma das companhias vendendo indulgências. Há até mesmo uma previsão no Protocolo de Kyoto permitindo as Nações a aumentar sua produção oficial de poluentes por meio do pagamento de projetos de compnsação/fixação de carbono em outros países."

Com vocês a senhorita Bertha Becker, palmas a ela, que diz:
É verdade, Mr. Sachs,
Observa-se um processo de mercantilização da natureza. Elementos da natureza estão se transformando em mercadorias fictícias, usando a expressão de Karl Polanyi, em seu livro A grande transformação. Fictícias por quê? Porque elas não foram produzidas para venda no mercado – o ar, a água, a biodiversidade. Mas, no entanto, através desta ficção são gerados mercados reais e isto se deu, como Polanyi mostra muito bem, no início da industrialização, quando terra, dinheiro e trabalho foram transformados em mercadorias fictícias, gerando mercados reais. O que é o protocolo de Kyoto se não o mercado do ar? É a tentativa de
estabelecer cotas de emissão de carbono nos países fortemente industrializados e poluidores em troca de manutenção de florestas em países com elas dotadas. O mercado do ar é o mais avançado. Em outras palavras, esses mercados reais tentam se institucionalizar em fóruns globais, o que também é uma vertente nova dentro do Direito Internacional.

Não é fantasia o fato de que está em curso na Amazônia a transformação de bens da natureza em mercadorias. É o caso da Peugeot, que faz investimentos no sentido de seqüestro do carbono no Mato Grosso; na ilha do Bananal, a empresa inglesa S. Barry; a Mil Madeireira que, tem um projeto neste sentido no estado do Amazonas; a Central South West Corporations, de Dallas, uma empresa de energia que fez uma aquisição no Paraná de setecentos mil hectares, através da mediação da National Conservancy, da reserva da Serra de Itaqui; além dos projetos que não conhecemos, visto que uns são oficiais e outros não. Há restrições a colocar nesse sentido porque a terra e a floresta são bens públicos, e a venda de floresta significa venda de território e não é correta do ponto de vista do país.

Chamem o Capitão Planeta!

Para o trabalho do Sr. Ignacy Sachs acesse http://diplobr.rezo.net/2008-11,a2646#nh77 Amazônia – laboratório das biocivilizações do futuro e para o da Sra. Bertha Becker procure por Geopolítica da Amazônia.
Ignacy Sachs

Oh, mercy, mercy me (!):

http://www.youtube.com/watch?v=gyZ0E8c2c-A

Abraços,

Thiago.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

As cicatrizes da ditadura discutidas de uma maneira razoável...

...por Maria Celina D'Araujo, vale a pena ler:

Pouco a dizer. Talvez o tempo nos oprima (rs).
Fica aí minha curiosidade coma movimentação social de amanhã na Boca Maldita. Quando penso em seu apartidarismo e na ausência de interesses particulares, apoio-a totalmente. Mas quem saberá?
Como membro sociedade civil, penso, é certo: devemos nos expressar. É sadio, dói apenas em nossos ânimos de cidadãos abatidos. Além disso, tou curioso - mídia, civis, alarde, movimentação, campanha CONTRA políticos, no Paraná, do Paraná (!). On verra...

Bem, segue o link com a proposta do movimento - apartidário e pacífico:


I want to break free do Queen:


Abraço pro manos e beijos pros brotos!

Thiago.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Andando.

Hoje, enquanto caminhava, encontrei-me ao lado com um senhor idade. "Como é simpático!", logo pensei. Resolvi estender a mão daquele jeito debochado, que não leva em conta o medo a incrteza das pessoas quanto a acenos de estranhos no meio da cidade.
Sua acompanhante me lançou olhares pouco amigáveis enquanto aquele homem baixo, de pele escura cabelos já brancos tentava comigo trocar um "dedo de prosa". Disse: "Não é fácil!" Repliquei tentando animá-lo: "O quê que não é facil?".
Continuou na de que a coisa não estava fácil enquanto eu tentava dar-lhe alguma força. "Não tá facil pra ninguém, e é por isso que deixaremos a peteca cair, meu senhor?".
Pouco me animei com sua resposta. Me contou já ter 80 anos e isto era tempo demais no mundo, que estava cansado e assim se afastou. Olhei em volta e notei um enorme contingente de pessoas cansadas.
Então me vem à cabeça, porque eu não estava tão cansado assim? - Só pode ser por teimosia!
Fica a minha intenção de ajudar aquele senhor. Desejo-lhe o tão almejado conforto e penso na carência de tantos outros velhinhos como aquele, vividos, cheios de histórias e vítimas do cansaço.
Para dar um pouco de conforto àqueles que se sentem pressionados por este cansaço da alma - seja lá por qual motivo - eu dedico este texto de Rubem Braga:
Meu Ideal Seria Escrever...

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.
Abraços,
Thiago.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Um poema lindo!

Olhe:


POEMA ÁRABE - LINDO
(Autor Desconhecido)

سب الدستور المعدل عام أصبحت إسبانيا دولة قانون إجتماعية و ديمقراطية

تح نظام ملكي برلماني. الملك منصبه فخري و رن و واحدئيس الوزراء ه

الحاكم الفعلي للبلاد. البرلمان الإسباني مقسم الى مجلسين واحد للأعيا

عدد أعضاء يبل عين و واحد للنواب و عدد نتائج الانتخابات نائب. نتائج

الانتخابات الأخير مباشرة من أصبحت الشعبسنوات، بينما كل سنوات، بينما

يعين عنتخاباتضو من مجلس ا الشعب أيضاً. رئيس الوزراء و الوزراءيتم ماعية

و تعيينهمللأعيان


Quase chorei...no trecho que diz: قبل البرلمان اعتماداً على نتائج


(!)


Seguindo na luta, com uma música pra animar os forasteiros que por aqui passam:
O Blues da Piedade, de cazuza por Cássia Eller: http://www.youtube.com/watch?v=pE98Ch3eM-k E a letra abaixo:

Blues da Piedade
Cazuza
Composição: Roberto Frejat/Cazuza

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm
Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
____________________________________________

E por último um link que por um bom tempo acompanhará as postagens.

Se trata de uma campanha pelo levantamento de assinaturas onde se diz "1.000.000.000 de pessoas vivem com fome e eu tô muuuuuuuuuuuuuuito bravo com isso!/ 1.000.000.000 people live in chronic hunger and I'm mad as hell!". Quanto mais pessoas derem um visto nisso, maior a força do argumento do autor da campanha em um Fórum das Nações Unidas no qual serão discutidas política de combate à fome. Chega de papo, aí vai o endereço:


http://www.1billionhungry.org/ É rápido só exige nome, email, cidade e país. Passem a todos que puderem.


Abraços pros manos e beijos pras prendas!



Thiago.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

À toa...

Saudações, amigos! [Será que eu devo me reportar a alguém quando escrevo aqui? Vamos descobrir com o tempo...]

Neste espaço também caberão impressões de bons dias e de dias sem graça alguma.

Um lugar onde vontade pra reconhecer quão rápido vem passando a vida - minha e, aposto, também a de vocês - exigindo de nós frieza e coragem pra responder aos mais variados compromissos e estímulos.

Tá bem, temos companhia e ideais para correr atrás, mas, ainda assim, estamos expostos ao cansaço, às dúvidas sobre nossas reais capacidades, ao sabor de dias bons e ruins. Temos máximas para nos animar e um amanhã para acordarmos bem e não mais pensarmos em nossos dilemas, mas em auxiliar outras pessoas quando pressionadas por esse mundão.

A coisa (o problema) está na dificuldade que cada vez mais temos em nos entregarmos a seja lá quais forem as atividades, levantando questionamentos constantes sobre nossas ações.


Este texto de Clarice Lispector é muito bonito e aborda este tipo de hesitação, vejam:

VITÓRIA NOSSA




O QUE TEMOS FEITO de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.
Não temos amado acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende por não querermos ser tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos, nem aos outros. Não temos nenhuma algria que já tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos pois isso seria o começo de uma vida larga talvez sem consolo. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro que por amor diga: teu medo. Temos organizado associações de pavor sorridente, onde se serve a bebida com soda. Temos procurado salvar-nos, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de amor e ódio. Temos mantido em segredo a nossa morte. Temos feito arte por não sabermos como é a outra coisa. Temos disfarçado com amor nossa indiferença, disfarçado nossa indiferença com a angústia, disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior. Não temos adorado, por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer"pelo menos não fui tolo", e assim não chorarmos antes de apagar a luz. Temos tido a certeza de que eu também e vocês todos também, por isso todos sem saber se amam. Temos sorrido em público do que não sorrimos quando ficamos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso temos considerado a vitória nossa de cada dia...


(Jornal do Brasil, 26/8/67)

Segue um vídeo do Raul Seixas (Raulzito daqui pra frente) que diz: "Tá muito cedo pra você se acostumar!"

Raul Seixas - Não pare na pista: http://www.youtube.com/watch?v=JOANFAbKdhY

Abraço,

Thiago.


terça-feira, 25 de maio de 2010

Pra não pular um dia...

...coloco: cheguei em casa satisfeito com a Semana Integrada de RI! Foi um evento muito legal e eclético, onde a galera pode botar a boca no trombone com um pessoal qualificado.
São novos ventos trazidos à nossa instituição, pessoal. De agora em diante começemos a brigar por espaço em outras frentes - o CARI e além...(!).
Com qualquer dois mil réis dos Novos Bahianos, pra não perder o costume de postar um vídeo:
Beijos pras meninas e abraços pros companheiros,
Thiago.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Resolvi criar um blog!

Saudações, meus futuros frequentadores!
Devo-lhes contar que resolvi criar um blog. Eu penso: vai servir para desabafar e lançar nesse oceano cibernético minhas garrafas com mensagens prostradas de indignação ou de fascínio pela nossa vida.
Para mim vale falar.
Começo, então, com uma linda música de Gonzaguinha e uma notícia pouco atraente, mas fiel à nossa realidade.
Abraços para os amigos e beijos para as meninas.
Thiago.

http://www.youtube.com/watch?v=N31CT6M-30g

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Para sociólogo, Brasil ainda vive um abismo social
Jessé Souza afirma que Bolsa Família não consegue incluir mais pobres e resolver questão da desigualdade

Especialista é autor de "A Ralé Brasileira", em que estuda parcela da população que vive como "subgente"

UIRÁ MACHADO, DE SÃO PAULO - Folha de São Paulo
Na contramão dos estudos que apontam melhora da distribuição de renda no Brasil, o sociólogo Jessé Souza afirma que o país ainda vive uma "desigualdade abissal" em sua sociedade.
Coordenador do Centro de Pesquisa sobre Desigualdade Social da Universidade Federal de Juiz de Fora, Souza lançou recentemente o livro "A Ralé Brasileira", em que estuda as características dessa "parcela da população que vive como subgente".
A seguir, trechos da entrevista concedida por Souza.

Folha - A proporção de brasileiros vivendo abaixo da linha da miséria caiu nos últimos anos. Em seu último livro, o sr. diz ser falsa a tese de que a desigualdade brasileira está desaparecendo. Por quê?
Jessé Souza - Esses índices mostram apenas que a pobreza absoluta diminuiu. Mas a desigualdade é um conceito relacional.O Brasil é uma das sociedades complexas mais desiguais do planeta. Entre 30% e 40% de sua população tem inserção precária no mercado e na esfera pública.
Somos uma sociedade altamente conservadora, que aceita conviver com parcela significativa da população vivendo como "subgente".
Essa classe social, que chamamos provocativamente de "ralé", é a mão de obra barata para as classes média e alta que podem -contando com o exército de empregadas, motoboys, porteiros, carregadores, babás e prostitutas- se dedicar às ocupações rentáveis e com alto retorno em prestígio.
É isso que chamo de "desigualdade abissal" como nosso problema central.
Qual sua avaliação sobre o Bolsa Família?
O programa Bolsa Família tem extraordinário impacto social, econômico e político, com investimento público relativamente muito baixo. É incrível que não se tenha pensado nisso antes. Mais incrível ainda que exista gente contra.
Por outro lado, o Bolsa Família não tem condições, sozinho, de reverter o quadro de desigualdade e "incluir" e "redimir" a "ralé".
Esse é um desafio de toda a sociedade, e não apenas do Estado. É claro que houve avanços nas duas últimas décadas, mas mudança social é muito mais do que condições econômicas favoráveis.
O senhor tem argumentado que não é possível limitar a discussão de classe à questão da renda e que é necessária uma nova compreensão das classes sociais.
A redução das classes sociais ao seu substrato econômico implica perceber apenas os aspectos materiais, como dinheiro, e "esquecer" a transmissão de valores imateriais, como as formas de agir no mundo.
E são esses valores imateriais que constituem os indivíduos como indivíduos de classe, com comportamentos típicos incutidos desde a mais tenra infância.Como regra, as virtudes são todas do "espírito", como a inteligência. Os vícios são ligados ao "corpo". As classes superiores "incorporam" as virtudes espirituais, e as inferiores, as virtudes ambíguas do corpo.
As virtudes do espírito recebem bons salários, prestígio e reconhecimento social. As classes do "corpo" tendem a ser animalizadas, podendo ser usadas e até mortas por policiais sem que ninguém se comova com isso.
E o senhor afirma que mesmo a educação é insuficiente?
É claro que a educação é um fator fundamental. O problema é que a competição social não começa na escola.Sem considerar que crianças de classes diversas já chegam à escola como vencedoras ou perdedoras, o que teremos é uma escola que só vai oficializar o engodo do mérito caído do céu de uns e legitimar, com a autoridade do Estado e a anuência da sociedade, o estigma de outros.