sexta-feira, 28 de maio de 2010

Andando.

Hoje, enquanto caminhava, encontrei-me ao lado com um senhor idade. "Como é simpático!", logo pensei. Resolvi estender a mão daquele jeito debochado, que não leva em conta o medo a incrteza das pessoas quanto a acenos de estranhos no meio da cidade.
Sua acompanhante me lançou olhares pouco amigáveis enquanto aquele homem baixo, de pele escura cabelos já brancos tentava comigo trocar um "dedo de prosa". Disse: "Não é fácil!" Repliquei tentando animá-lo: "O quê que não é facil?".
Continuou na de que a coisa não estava fácil enquanto eu tentava dar-lhe alguma força. "Não tá facil pra ninguém, e é por isso que deixaremos a peteca cair, meu senhor?".
Pouco me animei com sua resposta. Me contou já ter 80 anos e isto era tempo demais no mundo, que estava cansado e assim se afastou. Olhei em volta e notei um enorme contingente de pessoas cansadas.
Então me vem à cabeça, porque eu não estava tão cansado assim? - Só pode ser por teimosia!
Fica a minha intenção de ajudar aquele senhor. Desejo-lhe o tão almejado conforto e penso na carência de tantos outros velhinhos como aquele, vividos, cheios de histórias e vítimas do cansaço.
Para dar um pouco de conforto àqueles que se sentem pressionados por este cansaço da alma - seja lá por qual motivo - eu dedico este texto de Rubem Braga:
Meu Ideal Seria Escrever...

Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.
Abraços,
Thiago.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Um poema lindo!

Olhe:


POEMA ÁRABE - LINDO
(Autor Desconhecido)

سب الدستور المعدل عام أصبحت إسبانيا دولة قانون إجتماعية و ديمقراطية

تح نظام ملكي برلماني. الملك منصبه فخري و رن و واحدئيس الوزراء ه

الحاكم الفعلي للبلاد. البرلمان الإسباني مقسم الى مجلسين واحد للأعيا

عدد أعضاء يبل عين و واحد للنواب و عدد نتائج الانتخابات نائب. نتائج

الانتخابات الأخير مباشرة من أصبحت الشعبسنوات، بينما كل سنوات، بينما

يعين عنتخاباتضو من مجلس ا الشعب أيضاً. رئيس الوزراء و الوزراءيتم ماعية

و تعيينهمللأعيان


Quase chorei...no trecho que diz: قبل البرلمان اعتماداً على نتائج


(!)


Seguindo na luta, com uma música pra animar os forasteiros que por aqui passam:
O Blues da Piedade, de cazuza por Cássia Eller: http://www.youtube.com/watch?v=pE98Ch3eM-k E a letra abaixo:

Blues da Piedade
Cazuza
Composição: Roberto Frejat/Cazuza

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm
Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
____________________________________________

E por último um link que por um bom tempo acompanhará as postagens.

Se trata de uma campanha pelo levantamento de assinaturas onde se diz "1.000.000.000 de pessoas vivem com fome e eu tô muuuuuuuuuuuuuuito bravo com isso!/ 1.000.000.000 people live in chronic hunger and I'm mad as hell!". Quanto mais pessoas derem um visto nisso, maior a força do argumento do autor da campanha em um Fórum das Nações Unidas no qual serão discutidas política de combate à fome. Chega de papo, aí vai o endereço:


http://www.1billionhungry.org/ É rápido só exige nome, email, cidade e país. Passem a todos que puderem.


Abraços pros manos e beijos pras prendas!



Thiago.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

À toa...

Saudações, amigos! [Será que eu devo me reportar a alguém quando escrevo aqui? Vamos descobrir com o tempo...]

Neste espaço também caberão impressões de bons dias e de dias sem graça alguma.

Um lugar onde vontade pra reconhecer quão rápido vem passando a vida - minha e, aposto, também a de vocês - exigindo de nós frieza e coragem pra responder aos mais variados compromissos e estímulos.

Tá bem, temos companhia e ideais para correr atrás, mas, ainda assim, estamos expostos ao cansaço, às dúvidas sobre nossas reais capacidades, ao sabor de dias bons e ruins. Temos máximas para nos animar e um amanhã para acordarmos bem e não mais pensarmos em nossos dilemas, mas em auxiliar outras pessoas quando pressionadas por esse mundão.

A coisa (o problema) está na dificuldade que cada vez mais temos em nos entregarmos a seja lá quais forem as atividades, levantando questionamentos constantes sobre nossas ações.


Este texto de Clarice Lispector é muito bonito e aborda este tipo de hesitação, vejam:

VITÓRIA NOSSA




O QUE TEMOS FEITO de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.
Não temos amado acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende por não querermos ser tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos, nem aos outros. Não temos nenhuma algria que já tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos pois isso seria o começo de uma vida larga talvez sem consolo. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro que por amor diga: teu medo. Temos organizado associações de pavor sorridente, onde se serve a bebida com soda. Temos procurado salvar-nos, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de amor e ódio. Temos mantido em segredo a nossa morte. Temos feito arte por não sabermos como é a outra coisa. Temos disfarçado com amor nossa indiferença, disfarçado nossa indiferença com a angústia, disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior. Não temos adorado, por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer"pelo menos não fui tolo", e assim não chorarmos antes de apagar a luz. Temos tido a certeza de que eu também e vocês todos também, por isso todos sem saber se amam. Temos sorrido em público do que não sorrimos quando ficamos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso temos considerado a vitória nossa de cada dia...


(Jornal do Brasil, 26/8/67)

Segue um vídeo do Raul Seixas (Raulzito daqui pra frente) que diz: "Tá muito cedo pra você se acostumar!"

Raul Seixas - Não pare na pista: http://www.youtube.com/watch?v=JOANFAbKdhY

Abraço,

Thiago.


terça-feira, 25 de maio de 2010

Pra não pular um dia...

...coloco: cheguei em casa satisfeito com a Semana Integrada de RI! Foi um evento muito legal e eclético, onde a galera pode botar a boca no trombone com um pessoal qualificado.
São novos ventos trazidos à nossa instituição, pessoal. De agora em diante começemos a brigar por espaço em outras frentes - o CARI e além...(!).
Com qualquer dois mil réis dos Novos Bahianos, pra não perder o costume de postar um vídeo:
Beijos pras meninas e abraços pros companheiros,
Thiago.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Resolvi criar um blog!

Saudações, meus futuros frequentadores!
Devo-lhes contar que resolvi criar um blog. Eu penso: vai servir para desabafar e lançar nesse oceano cibernético minhas garrafas com mensagens prostradas de indignação ou de fascínio pela nossa vida.
Para mim vale falar.
Começo, então, com uma linda música de Gonzaguinha e uma notícia pouco atraente, mas fiel à nossa realidade.
Abraços para os amigos e beijos para as meninas.
Thiago.

http://www.youtube.com/watch?v=N31CT6M-30g

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Para sociólogo, Brasil ainda vive um abismo social
Jessé Souza afirma que Bolsa Família não consegue incluir mais pobres e resolver questão da desigualdade

Especialista é autor de "A Ralé Brasileira", em que estuda parcela da população que vive como "subgente"

UIRÁ MACHADO, DE SÃO PAULO - Folha de São Paulo
Na contramão dos estudos que apontam melhora da distribuição de renda no Brasil, o sociólogo Jessé Souza afirma que o país ainda vive uma "desigualdade abissal" em sua sociedade.
Coordenador do Centro de Pesquisa sobre Desigualdade Social da Universidade Federal de Juiz de Fora, Souza lançou recentemente o livro "A Ralé Brasileira", em que estuda as características dessa "parcela da população que vive como subgente".
A seguir, trechos da entrevista concedida por Souza.

Folha - A proporção de brasileiros vivendo abaixo da linha da miséria caiu nos últimos anos. Em seu último livro, o sr. diz ser falsa a tese de que a desigualdade brasileira está desaparecendo. Por quê?
Jessé Souza - Esses índices mostram apenas que a pobreza absoluta diminuiu. Mas a desigualdade é um conceito relacional.O Brasil é uma das sociedades complexas mais desiguais do planeta. Entre 30% e 40% de sua população tem inserção precária no mercado e na esfera pública.
Somos uma sociedade altamente conservadora, que aceita conviver com parcela significativa da população vivendo como "subgente".
Essa classe social, que chamamos provocativamente de "ralé", é a mão de obra barata para as classes média e alta que podem -contando com o exército de empregadas, motoboys, porteiros, carregadores, babás e prostitutas- se dedicar às ocupações rentáveis e com alto retorno em prestígio.
É isso que chamo de "desigualdade abissal" como nosso problema central.
Qual sua avaliação sobre o Bolsa Família?
O programa Bolsa Família tem extraordinário impacto social, econômico e político, com investimento público relativamente muito baixo. É incrível que não se tenha pensado nisso antes. Mais incrível ainda que exista gente contra.
Por outro lado, o Bolsa Família não tem condições, sozinho, de reverter o quadro de desigualdade e "incluir" e "redimir" a "ralé".
Esse é um desafio de toda a sociedade, e não apenas do Estado. É claro que houve avanços nas duas últimas décadas, mas mudança social é muito mais do que condições econômicas favoráveis.
O senhor tem argumentado que não é possível limitar a discussão de classe à questão da renda e que é necessária uma nova compreensão das classes sociais.
A redução das classes sociais ao seu substrato econômico implica perceber apenas os aspectos materiais, como dinheiro, e "esquecer" a transmissão de valores imateriais, como as formas de agir no mundo.
E são esses valores imateriais que constituem os indivíduos como indivíduos de classe, com comportamentos típicos incutidos desde a mais tenra infância.Como regra, as virtudes são todas do "espírito", como a inteligência. Os vícios são ligados ao "corpo". As classes superiores "incorporam" as virtudes espirituais, e as inferiores, as virtudes ambíguas do corpo.
As virtudes do espírito recebem bons salários, prestígio e reconhecimento social. As classes do "corpo" tendem a ser animalizadas, podendo ser usadas e até mortas por policiais sem que ninguém se comova com isso.
E o senhor afirma que mesmo a educação é insuficiente?
É claro que a educação é um fator fundamental. O problema é que a competição social não começa na escola.Sem considerar que crianças de classes diversas já chegam à escola como vencedoras ou perdedoras, o que teremos é uma escola que só vai oficializar o engodo do mérito caído do céu de uns e legitimar, com a autoridade do Estado e a anuência da sociedade, o estigma de outros.