segunda-feira, 28 de junho de 2010

Sim.

Sim, eu estava lá. Vi você ali, em minha frente, com o mesmo ar de pureza de quando te apresentastes a mim antes de nos conhecermos. Foi uma experiência estranha, te ver e nada falar, sem a ninguém me reportar e isso foi muito bom para refazer a imagem de ti em meus pensamentos. Continuas radiante, sabias?
Não me atrevi a falar con usted naquele dia e sabes bem o motivo. Mas eu devo admitir que não estava bem, havia pego um desses vírus da gripe que levam muitas pessoas. Aquilo me deixou cansado e enfermo.
Eu mal me animava e retornava àquele estado letárgico, chegando a não querer sair do chão por um instante. Melhorei de um dia para o outro após ter recorrido aos serviços médicos recomendados por nossa organização civilizacional, sem pensar se valia a pena seguir com tudo isso. Do jeitinho que os médicos gostam, meu bem.
E digo, nada como uma doença para percebermos bem quem somos de fato. Havia o suporte de amigos em meio a sonos delirantes, uma inusitada ausência de apetite e uma falta de disposição para pensar. Um emaranhado de palavras dispersas e pensamentos soltos.
Sim. Aprendi muito nos últimos dias enquanto navegava por outros cantos. Há quem diga que caí doente por você, em chiste, claro - e também não direi que não tenha sido. Confesso que, com as devidas ressalvas, deixei-me levar. No entanto, não cheguei a pensar em reportar-me a pessoa alguma, estava tudo muito bem, ora bolas! Talvez não tivesse sido a hora.
Aquela espontaneidade e vontade de dizer as coisas é coisa minha, que aprendi nos últimos tempos, pra não deixar nada por dizer, nada engasgado - um problema constante em meu convívio nos últimos tempos. Pode assustar, não nego, mas fiz!
Quero que saibas, que para mim fostes uma outra jóia (e de luxo!). Desde o momento em que te vi brilhar só quis ter-te em minhas mãos. Até mesmo comparo as ocasiões, como a primeira, quando passei por ti como se passa em uma vitrine e nos outros momentos em que tu te mostrastes. Bem entendes...
Já conheces o texto que virá abaixo.
No mais eu digo, continuo en train de roder sur la tempête tout seul, mas é a primeira vez em que encontro um um caminho nessa falta de lógica ou de senso. A primeira vez em que me sinto seguro em não pensar no que está por vir. E que venha!

Aí vai o texto:

A Viajante

Rubem Braga


Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá.

Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.

Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio — você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.

Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.

Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde - torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.

Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.

Rio, abril de 1952.

Texto extraído do livro "A Borboleta Amarela", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1963, pág. 145.

http://www.youtube.com/watch?v=cmC3DROrBgo

Beijos pras prendas, com muito carinho e só para elas,

Thiago.

domingo, 13 de junho de 2010

Qual é o plural de etanol?

Chegando do Contestado, uma parte apagada da história de nós paranaenses. Porém, presente de maneira escancarada no entorno de nossas convivências, basta fazer algumas conexões para notar. Eu enfatizo por ter bons amigos vindos das terras contestadas.
Embora muito sangue tenha sido derramado a cada dormente de estrada de ferro ou km de asfalto das várias estradas que conduzem nossas vidas, para a nossa geração o mundo parece ser uma constância de paz, sem ligações com o passado. Tomar consciência desses laços é muito difícil e foi no que me concentri durante o fim de semana. Muitas vidas se perderam no Contestado e não se deve esquecê-las.
Bem, paro por aqui com o pouquíssimo que sei. Deixo para o Sr. Nilson Fraga ensinar a mim e a muitos outros sobre este tema excuso da História de nosso país.
A viagem foi muito legal. O contato com um pessoal novo é sempre bom. No percurso eu ri muito e fiz sucesso. (!)
No mais deixo alguma coisa do Charles Baudelaire, que li na viagem e me arrepiou os pêlos:

XLIX
Le poison

Le vin sait revêtir le plus sordide bouge
D'un luxe miraculeux,
Et fait surgir plus d'un portique fabuleux
Dans l'or de sa vapeur rouge,
Comme un soleil couchant dans un ciel nébuleux.

L'opium agrandit ce qui n'a pas de bornes,
Allonge l'illimité,
Approfondit le temps, creuse la volupté,
Et des plaisirs noirs et mornes,
Remplit l'âme au-delà de sa capacité.

Tout cela ne vaut pas le poison qui découle
De tes yeux, de tes yeux verts,
Lacs où mon âme tremble et se voit à l'envers...
Mes songes viennent en foule
Pour se désalterer à ces gouffres amers.

Tout cela ne vaut pas le terrible prodige
De ta salive qui mord,
Qui plonge dans l'oubli mon âme sans remord,
Et, charriant le vertige,
La roulle déffaillante aux rives de ma mort!

É um verso das Flores do Mal, aí vai a tradução: http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/charles-baudelaire/o-veneno.php

(anda batendo forte!)

E uma música aí. "Tu me fais tourner la tête..."
http://www.youtube.com/watch?v=_bENc07ISDA

Ah, e que torçamos pelo Brasil com garra em todos os dias!

Aliás, o plural de etanol é EEEEETA Nóis!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Abraço pros manos e beijos pras prendas.

Thiago.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sra. Becker e Sr. Sachs trocando figurinhas.

O protocolo de Kyoto é muy comentado.
Eu hoje lhes trago duas abordagens que dialogam sobre este tema.
Passandopor cima do cavalheirismo, deixemos o senhor Ignacy Sachs nos contar algo:

O protocolo de Kyoto deu início aos assim chamados mercados de créditos de carbono, um esquema que recentemente foi objeto de críticas legítimas. A construção artificial desses mercados depende da alocação inicial de quotas de emissão de gases de efeito-estufa às empresas poluidoras. Estas podem vender os créditos não utilizados às empresas que ultrapassaram a sua quota. A outorga de quotas por demais generosas equivale a oferecer às empresas poluidoras um lucro extraordinário provindo da venda da quota não consumida, o que tem ocorrido com freqüência na Europa. Um outro tipo de efeito perverso aconteceu com as usinas geradoras de energia elétrica que tiveram que recorrer ao mercado de créditos de carbono, mas, graças à sua posição monopolística, puderam transferir o custo adicional aos consumidores. Assim, estes passaram a financiar o direito a poluir dos fornecedores de energia elétrica .

Ele faz uma nota:
Ver sobre o assunto o artigo do correspondente ambiental do Guardian, David Adam, “Britain’s worst polluters set for windfall of millions”, 12 de setembro 2008. Ver ainda, para uma crítica fundamental e bem humorada do Mecanismo de Produção Limpa, o livro de George Monbiot, Heat – How to Stop the Planet Burning, Penguin Books, London, 2007: “Just as in the fifteenth and sixteenth centuries, you could sleep with your sister, kill and lie without fear of eternal damnation, today you can leave your windows open while the heating is on, drive and fly without endangering the climate, as long as you give your ducats to one of the companies selling indulgences. There is even a provision of the Kyoto Protocol permitting Nations to increase their official production of pollutants by paying for carbon-cutting projects in other countries.” (p.210)
"Arriscando na tradução temos: Como nos séculos XV e XVI, quando você poderia dormir com sua irmã, matar e mentir sem medo da danação eterna, hoje você pode deixar suas janelas abertas quando está muito quente, dirigir e voar sem interferir perigosamente no clima, contando que dê seus ducados a uma das companhias vendendo indulgências. Há até mesmo uma previsão no Protocolo de Kyoto permitindo as Nações a aumentar sua produção oficial de poluentes por meio do pagamento de projetos de compnsação/fixação de carbono em outros países."

Com vocês a senhorita Bertha Becker, palmas a ela, que diz:
É verdade, Mr. Sachs,
Observa-se um processo de mercantilização da natureza. Elementos da natureza estão se transformando em mercadorias fictícias, usando a expressão de Karl Polanyi, em seu livro A grande transformação. Fictícias por quê? Porque elas não foram produzidas para venda no mercado – o ar, a água, a biodiversidade. Mas, no entanto, através desta ficção são gerados mercados reais e isto se deu, como Polanyi mostra muito bem, no início da industrialização, quando terra, dinheiro e trabalho foram transformados em mercadorias fictícias, gerando mercados reais. O que é o protocolo de Kyoto se não o mercado do ar? É a tentativa de
estabelecer cotas de emissão de carbono nos países fortemente industrializados e poluidores em troca de manutenção de florestas em países com elas dotadas. O mercado do ar é o mais avançado. Em outras palavras, esses mercados reais tentam se institucionalizar em fóruns globais, o que também é uma vertente nova dentro do Direito Internacional.

Não é fantasia o fato de que está em curso na Amazônia a transformação de bens da natureza em mercadorias. É o caso da Peugeot, que faz investimentos no sentido de seqüestro do carbono no Mato Grosso; na ilha do Bananal, a empresa inglesa S. Barry; a Mil Madeireira que, tem um projeto neste sentido no estado do Amazonas; a Central South West Corporations, de Dallas, uma empresa de energia que fez uma aquisição no Paraná de setecentos mil hectares, através da mediação da National Conservancy, da reserva da Serra de Itaqui; além dos projetos que não conhecemos, visto que uns são oficiais e outros não. Há restrições a colocar nesse sentido porque a terra e a floresta são bens públicos, e a venda de floresta significa venda de território e não é correta do ponto de vista do país.

Chamem o Capitão Planeta!

Para o trabalho do Sr. Ignacy Sachs acesse http://diplobr.rezo.net/2008-11,a2646#nh77 Amazônia – laboratório das biocivilizações do futuro e para o da Sra. Bertha Becker procure por Geopolítica da Amazônia.
Ignacy Sachs

Oh, mercy, mercy me (!):

http://www.youtube.com/watch?v=gyZ0E8c2c-A

Abraços,

Thiago.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

As cicatrizes da ditadura discutidas de uma maneira razoável...

...por Maria Celina D'Araujo, vale a pena ler:

Pouco a dizer. Talvez o tempo nos oprima (rs).
Fica aí minha curiosidade coma movimentação social de amanhã na Boca Maldita. Quando penso em seu apartidarismo e na ausência de interesses particulares, apoio-a totalmente. Mas quem saberá?
Como membro sociedade civil, penso, é certo: devemos nos expressar. É sadio, dói apenas em nossos ânimos de cidadãos abatidos. Além disso, tou curioso - mídia, civis, alarde, movimentação, campanha CONTRA políticos, no Paraná, do Paraná (!). On verra...

Bem, segue o link com a proposta do movimento - apartidário e pacífico:


I want to break free do Queen:


Abraço pro manos e beijos pros brotos!

Thiago.