segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Pra Natal e Ano novo:

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RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlitos Drummond 
Thiago.

domingo, 16 de setembro de 2012

Dois corações...


CORAÇÃO SEGUNDO

De acrílico, de fórmica, de isopor, meticulosamente combinado, fiz meu segundo coração, para enfrentar situações a que o primeiro, o de nascença, não teria condições de resistir. Tornei-me, assim, homem de dois corações. A operação sigilosa foi ignorada pelos repórteres. Eu mesmo fabriquei meu coração novo, nos fundos da casa onde moro. Nenhum vizinho desconfiou, mesmo porque sabem que costumo fechar-me em casa, semanas inteiro, modelando bonecos de barro ou de massa, que depois ofereço às crianças. Oferecia. Meus bonecos não têm arte, representam o que eu quero. Fiz um Einstein que acharam parecido com Lampião. Para mim, era Einstein. Os garotos riam, tentando interpretar que tipos eu interpretara. Carlito! Não era. Às vezes, não sei por que, admitia que fosse Carlito. Nunca dei importância a leis de semelhança e verossimilhança, que sufocam toda espécie de criação.

Mas, como disse, fiz meu coração sem ninguém saber. E à noite, em perfeita lucidez, abrindo o peito mediante processo que não vou contar, pois minha descrição talvez horrorizasse o leitor, e eu não pretendo horrorizar ninguém – abrindo o peito, instalei lá dentro esse coração especial, regulado para não sofrer. Ao mesmo tempo, desliguei o outro. Como? Também prefiro não explicar. Possuo extrema habilidade manual, aguçada à noite. E sei o que geralmente se sabe dos órgãos do corpo e suas funções e reações, depois que ficou na moda tratar dessas coisas em jornais e revistas. Além disso, minha capacidade de resistir à do física sem pré foi praticamente ilimitada. Desde criança. Mas as dores morais, as dores alheias, as dores do mundo, acima de tudo, estas sempre me vulneravam. Recompus a incisão, senti que tudo estava perfeito, e fui dormir.


Na manhã seguinte, ao ler as notícias que falavam em fome no Paquistão, guerra civil na Irlanda, soldados que se drogam no Vietnã para esquecer o massacre, explosão experimental de bombas de hidrogênio, tensão permanente no Canal de Suez, golpes vitoriosos ou malogrados na América Latina, bem, não senti absolutamente nada. O coração funcionava a contento. Fui para o trabalho experimentando sensação inédita de leveza. No caminho, vim um corpo de homem e outro de mulher estraçalhados entre restos de um automóvel. Pela primeira vez pude contemplar um espetáculo desses sem me crispar e sem envenenar o meu dia. Fitei-o como a objetos de uma casa expostos na calçada, em hora de mudança. E passei um dia normal. Trabalho, refeições, sono, igualmente normais, coisa que não acontecia há anos.

Meu coração fora planejado para evitar padecimento moral, e desempenhava bem a função. Assisti impassível a cenas que me fariam explodir em lágrimas ou protestos. Felicitei-me pela excelência. Mas aí começou a ocorrer um fenômeno desconcertante. Eu, que não sofria com as doenças que me assaltavam, passei a sentir reflexos de moléstias inexistentes. Simples corte no dedo, sem inflamação, atingia-me como chaga aberta. Dor de cabeça que passa com um comprimido ficava durante semanas. Meu corpo tornou-se frágil, exposto ao sofrimento. Eu não tinha nada, consultei especialistas, fiz checkup, não se descobriu qualquer lesão ou distúrbio funcional. Eram penas imotivadas, gratuitas. Meu coração n° 2 passava pela radiografia sem ser percebido. Irredutível à dor moral, era invisível a aparelhos de precisão.

Comecei a sofrer tanto com os meus males carnais que a vida se tornou insuportável. A dor aparecia especialmente em horas impróprias. Em reuniões sociais. Em concertos. No escritório ao tratar de negócios. Então fazia caretas, emitia gemidos surdos, assumindo aspecto feroz. Assustavam-se, queriam chamar ambulância, eu recusava. Tinha medo de que descobrissem o coração fabricado.

Outra coisa: as crianças começaram a achar estranhos meus bonecos, não queriam aceitá-los. 

Sempre gostei de crianças. E elas me repeliam. Esmerei-me na feitura de peças que pudessem cativá-las, mas em vão.
Hoje vi um homem encostado a um oiti, diante do mar. Sua expressão de angústia dava ao rosto o aspecto de chão ressecado. Tive pena dele. Surpreso, ignorando tudo a seu respeito, mas participando de sua angústia e trazendo-a comigo para casa.
A gora à noite, decidi-me. Voltei a abrir o peito e examinei o coração segundo. Com pequena fissura no isopor, já não era perfeito. Ao tocá-lo, as partes se deslocaram, Inútil restaurá-lo. Joguei fora os restos, liguei o antigo, e fechei o cavername. Talvez, pela falta de uso, sinto que o coração velho está rateando. Que fazer? E vale a pena fazer? A manhã tarda a chegar, e não encontro resposta em mim.

Carlos Drummond de Andrade – nem mesmo um segundo coração aguenta o peso dos acasos ou dos maus planos por este mundo – dilemas comuns, de um home que consegue admiti-los como seus (:

*

Palavras finais de American History X – ótimo filme que ainda não tinha visto:
So I guess this is where I tell you what I learned - my conclusion, right? Well, my conclusion is: Hate is baggage. Life's too short to be pissed off all the time. It's just not worth it. Derek says it's always good to end a paper with a quote. He says someone else has already said it best. So if you can't top it, steal from them and go out strong. So I picked a guy I thought you'd like. 'We are not enemies, but friends. We must not be enemies. Though passion may have strained, it must not break our bonds of affection. The mystic chords of memory will swell when again touched, as surely they will be, by the better angels of our nature.'

*
E um indicativo de que as coisas na vida andam juntas (supeitosamente colocadas por um fã)

...

Thiago.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Back in the blog groove!

Pra não deixar completar um ano de produção neste pequeno espaço de confissões, impressões e compreensões, eu volto - "Baby I'm back in the NY groove". Desde 2001 (a última postagem) muita água passou por debaixo da ponte. Larguei as muletas, terminei as sessões de fisioterapia e depois de muito muuuuuito mancar aprendi a andar outra vez. Também mudei meu posicionamento geoestratégico/físico político (a coisa toda), conheci muita gente e interagi muito com a galera de longa data. É muita coisa mudando, uma nova rotina à que me adaptei no Sul, novos planos, planos a partir da realidade daqui já findada ou parcialmente findada, planos. :)
 
Também tem uma outra coisa, cara: depois de uns tropeços, erros, medical blunders or whatever "hey, I'm fine with me, man!". Eu cheguei a um relativo estado de tranquilidade, finalmente conseguindo me colocar na posição de alguém que segue a orientação do RIcardo Reis quando ele diz: "Molhemos leves as nossas mãos nos rios calmos para aprendermos calma também". Claro que a gente (humana) não deixa de ser uma maquininha de sensações e a carência pode assolar na espreita, pelos flancos, mesmo que nos preparemos para ela. Mas, cara, sei lá se é por estar ficando mais velhinho - não sei se maduro - eu tô conseguindo olhar pra realidade com mais calma, não a parcimônia gélida da ciência e sim com um olhar sereno.
Pra registrar esta INFLEXÃO (ou indício de) coloco estas lindas palavras que muito me deram conforto no ônibus, um dos bons poemas que estão espalhados pelo transporte público de Happy Harbor:
 
Vira o disco
 
 
Vira o tétrico disco e segue adiante.
E daí que a vida matou o amor,
que enegreceu o que era somente cor,
que envelheceu teu coração infante?
Segue adiante e vira o tétrico disco.
Há de ter outras cores numa esquina próxima.
 A tristeza não quer ser sina tua.
 
E, se for, inventa um melhor risco.
O coração, se estás vivo, não morre
e, mais, pode ser outra vez criança.
Inventa com o que vier teu porre de coisa boa.
 Dança a nova dança
e diz à tristeza que a vida corre
sem o disco ruim da desesperança.
Cezar Dias
 
E DAÍ, pergunta o Cezar.
 O E DAÍ é a segurança de si de teus "ombros suportarem o mundo". Eu tinha expressado meu novo ânimo com o blog e com as mudanças que tão se passando na vida e queria postar dois vídeos, que vou ainda, mas da primeira vez deu pau e eu perdi tudo. Elas dão o tom do que tenho passado nos últimos tempos.
 
E
 
Tchau!
 
Saudade deste espaço,
Abraço,
 
Thiago.