
Mancos estes tempos que tenho vivido e arrastados os momentos
quando não manco me arrasto de muletas...
Certo, nestes tempos, acomodado em casa com todo o carinho de maman et papa, tenho tempo sobrando, seja ele arrastado ou manco, e estou aproveitando ele pra "correr atrás da vida" (literalmente, claro) e fazer as coisas que gosto. Assim, andei lendo umas coisas legais, fiz um remember do meu costume de ler quadrinhos e tenho visto filmes. EEEEENTRE estes filmes que tenho visto, coube espaço para os clássicos que ainda não tinha visto e este post foi motivado pelo comentário sobre "2001 - uma odisséia no espaço", que, mermão, é mesmo um clássico. Clássico, pra este reles pescoço vermelho do sul do Brasil, não é aquele filme/obra artística que é indispensável à ostentação e à pedância e sim um filme/obra legal e capaz de despertar em seu espectador questionamentos, inquietações e curiosidades a partir da sua perspectiva específica.
Chegando finalmente ao comentário sobre "2001": ele vem de uma queixa de um grande amigo sobre o final do filme. Já disse que gostei do filme e a sequência final passa uma mensagem muito estimulante à humanidade. Entendi o filme como uma metáfora do processo evolutivo do homem desde o tempo de primata até a conquista do espaço. A meu ver esta metáfora que propulsiona a evolução é o pensamento, no filme é representado por aquele monolito negro sinistro. A montagem do filme é muito doida.
Enumerando, pra não me perder:
1. Na parte chamada “A aurora do homem”, os macacos, entendidos como precursores da mulher e do homem, aprendem a usar extensões do corpo (ossos) como vantagem estratégica para garantir seu território e fonte de água e conseguir mais caça tudo isso depois de receberem um estímulo da coisa preta, o monolito;
2. tem-se a representação da evolução do homem a partir daquele momento em uma das cenas mais famosas do cinema onde primata lança o osso e seu formato caindo e girando se confunde com o de uma estrutura no espaço, representando o progresso de lá até aqui. O especialista que chega à estação espacial está lá para investigar um monolito parecido, enterrado na lua, na missão deles este monolito manda um sinal de rádio ensurdecedor para JÚPITER;
3. 18 meses depois viajamos com uma expedição a Júpiter atrás do sinal emitido. Nisso testemunha-se uma trama entre os dois astronautas acordados (pois outros três hibernam) e o computador HAL 9000. A sequência é importante para o filme, pois mostra o homem saudável e de prontidão para resolver seus problemas e correr atrás de seus objetivos, Hal representa a técnica a serviço deste homem moderno de 2001 que se imaginava em 1968. A técnica se clama por infalível e não acredita que cometa erros. Hal erra, se de propósito ou não fica a critério de quem vê o filme. Após matar os tripulantes adormecidos (olha só o símbolo!), jogar um dos caras no cosmos e de ter impedido que o outro após resgatar seu amigo retornasse, Hal é desativado. A técnica que mata o homem, visa controlá-lo a despeito da imoralidade e irracionalidade da situação cai;
4. A parte final do filme se chama “Júpiter, o Infinito e Além” e retrata este último sobrevivente chegando a seu destino em uma cápsula, lá ele e o espectador são arrebatados por uma sequência de imagens hiper-ultra-coloridas do cosmos e do que se pode chamar geografia de Júpiter (eu associei a explosão de cores e formatos ao fato de Júpiter ser entendido como um planeta gasoso e sem atmosfera, sujeito a várias reações). O homem quase morre quando contempla este espetáculo – a meu ver isso representa uma vastidão de coisas e conteúdos ainda a serem vistos. 4.1. Assim chega-se à cena final o homem depois de passar por uma espiral de cores fantásticas se encontra em um aposento bem decorado e não entende nada (nem quem vê). O homem se vê ali na cápsula, sem a cápsula e depois só, com seu reflexo no espelho. Em seguida, sem a menor explicação ele encontra um outro homem já velho de costas fazendo a sua ceia. O homem ceando olha para o astronauta que o olhava e, de repente, se nota que o velho era o astronauta. (o homem lembra-se de como chegou até aquele ponto). O destaque da cena é o aposento bem decorado, a comida despertando o apetite, detalhes ricos.
Subitamente esse velho some e se torna um ancião à beira da morte. Quem vem para visitá-lo nesse momento? O MONOLITO (!!!) e ele aponta para este diacho, como alguém que pede forças. A cena final é a de um novo homem transformado por esse contato com o monólito, representado por um feto. Este feto se volta para a Terra e se fascina com ela (com aquela música retumbando ao fundo).
Talvez alguém pense que este feto que alude à idéia de homem evoluído seja um ET. Eu já acho que aquele novo homem recebe mais um lampejo de habilidade, sorte e competência para seguir seu caminho no cosmos e também a orientação de voltar-se para a Terra para seguir seu caminho. Ainda tem o detalhe de que no primeiro estímulo do monólito o homem vivia em bandos e no segundo morre sozinho.
Muita gente já tratou disso, inclusive o Drummond que diz:
O homem funde a cuca se não for a Júpiter...
... Restam outros sistemas fora do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de conviver.
Este lindo chamado ao homem novo feito por Kubrick (mestre do cinema) e Clarke (mestre do espaço) se encaixa no contexto da Guerra Fria, na tensão de vários conflitos e em meio à insurgência do jovem homem a partir de 1968 (ano do filme). Tá bem, o filme é um clássico e eu queria tê-lo visto antes, mas ao longo da vida e em outras obras e atitudes de pessoas pode-se notar o chamado do homem para olhar para si. É um chamado que se manifesta de diversas lindas maneiras e cabe a nós – ao homem e à mulher – percebê-lo e aproveitá-lo, evitando o crepúsculo da humanidade.
Abraço aos terráqueos,
(depois de muito tempo)
Thiago.