sexta-feira, 24 de março de 2017

ainda inteiro

Aí ela virou pra mim e perguntou como é que vc anda se sentindo nesse estado de suspensão etérea do mundo. Digo etérea de um dos costumes feios que tenho. Pode ser que eu queira enfeitar. Mas também tem o lado da tentativa de sinestesia, de misturar sentido e sentimento humano, lugar e sensação eu em um lugar dialogando com você sobre alguma coisa, suspenso, etéreo...

Então, me sinto mais e mais em contato com pedaços de um eu que mostrava seus impulsos na emulação de mundo que chamamos real. Aquela coisa, quando vc pode fazer um reboot, fica claríssimo que em nos resta um âmago de coisas e caem os enfeites. Que enfeites? As emulações de preocupação, the fucks you don't even imagine you give.

Então EU ACHO QUE se soltar no mundo, pedindo respostas à poeira e em algum momento sem certezas, funciona como um filtro.

Mas filtro de quê? 

Peraí que eu te explico, mas não me leve a mal, ok?
...

Eu tava saindo da redenção. Satisfeito. Era o quinto treino de corrida e funcional da semana. Fim de um ritual consolidado por mim nos últimos 8 anos.

Depois de fazer todos os alongamentos o baratinho natural bateu. Então, tava tudo legal. Beleza. Fim do break. Vamos tomar um banho e voltar pra luta. Tentar arrumar essa bagunça de vida. 

Respira fundo, ok? Vamo lá!

Nisso passa um maluco correndo.

E me gritam: Ajuda aí, cara! É assalto.

Eu tava tão tranquilo que por uns segundos não me engajei na treta. 

Depois veio um moleque e me pediu pelamordedeus que ajudasse, tudo isso em um intervalo de 40 segundos.

Run, rabbit!

Fui nessa!

Eu mais dois companheiros atrás do doido ladrão que jogou mochila e faca enquanto virava a esquina. 

Estava um pouco cansado do pós-treino, mas lembrei de jogar os braços e as mãos pra aproveitar o impulso, detalhe aerodinâmico que o Bolt domina muito bem.

Deu boa. Alcançamos o vagabundo. A materialização do antagonismo social. Terror do lumpen, do sofredor e do burguês. aqui é passe livre.

É nossa vez de cobrar, Rubem. Dei um leve chute no joelho esquerdo do cabra e quando ele se desestabilizou os outros dois camaradas já chegaram chutando. Fomos à forra. Eu peguei ele pela garganta dando sermão moralista, perguntando o porquê de fazer aquilo se era novo e podia trabalhar, sair de casa cedo e batalhar pela vida.

Mentira. Não deu tempo. A gente chutava ele na cabeça, nas costelas e jogava o peso todo dos golpes nas articulações. 

Algumas senhoras de bem que acompanhavam o episódio desde o parque passaram para bater com

Suas sombrinhas. 

Alguns senhores paravam o carro e também chutavam o bandido. Eu fiz isso várias vezes apertei o pescocinho dele e ouvia um barulho meio de traqueia, meio de osso estralando e olhava para os seus olhos serenos na hora da sova. No mais eu chutava, chutava e chutava. Quando respingava o puz e aquele chorume de escória que eu ouvia o apoio de meus comparsas que se multiplicavam e meu receio se esvaía: Fora, fora fora fora fora!

Ai que lindo!

Em algum momento atingimos o clímax da nossa manifestação em defesa de nossa convicção de bem, tínhamos a prova de que ele tinha feito um crime e merecia só uns sopapos pra aprender a lição.

Foi aí que aconteceu, da poça de sangue que tingia a rua inteira emanava um brilho.

Em minhas mãos eu via. Nos sapatos sujos de sangue dos paladinos da honradez E Também na boca das senhoras que tinham mordido as orelhas, os olhos e o falo do bandido que agora parecia uma massa disforme. Mas haviam muitos membros, muitos pênis, muitos olhos, muito sangue. 

Nada saciava aquele pentecostes de forra do senso comum.

Passado um tempo, depois de serpentes saírem daquelas entranhas expostas, cantou-se o hino nacional, delatou-se o caso pra não dar problema pra ninguém, cozinhou-se aquela carne de segunda e depois de muitas selfies do processo a rua se limpou.

Está linda e pacificada. Acho que agora alguém poderia pensar em
Abrir uma franquia por ali. O lugar vai ganhar valor depois dessa. Bora aproveitar, pq agora tá top.

*
Esse o feeling.

E aí alguma coisa na minha cabeça. Um impulso me coloca em movimento. 

Apostas feitas, foi-se tudo pra escanteio. Bora achar um buraco pra cavar enquanto isso.

Iniciei então aquele período que chamei de filtro.

*

Meus braços em tom alaranjado alavancam meu corpo embaixo de águas negras e diamantinas. Ali ficava tão evidente o antagonismo tanto do rio quanto de minha alma. 

 Pude rapidamente contemplar a ideia de cair nas trevas e em seguida a de subir pra luz. Este baque de cores mexeu nos meus viscerais medos, desejos e tédios.

Estou na  Chapada Diamantina, lugar de jornada pela terra, por si e com companhias. Aqui alguma coisa acorda e vai ver o que há em volta.

*
Não estava sozinho. Não estamos sozinhos. Saímos ao sol independente do relógio marcar 2, 10 ou 5.

*

A coisa, meu chapa, é que fui contaminado pela chapada.

A generosidade herbal

Técnicas de negociação 

O contato profundo

Mexeu

Reverberou

Ni mim. (“em mim” bem popular)

Despertei um coração que ainda pode bater muito forte e enxergar a beleza muito forte dentro de mim e dos outros


Qualquer tropeço 
Ou intervalo
É parte de um processo

Ou convite das representações teológicas de nossas contradições e dúvidas.

E um papo de dentro

Outros tons de azul eu diZia.

Expectativa 
Luz

Mais luz


*
Foi forte. 

Pra Cada qual com a sua intensidade e tipo de descoberta.

Poucos dias depois estava sendo tratado por sheik por estar ao lado de duas mulheres na Praia. No calor de uma barganha por cadeiras com a duração de dois minutos e que terminou na porrada.

Estética interessante, a da briga espontânea – umas porradas interessantes e um câmbio de narrativa muito abrupto, pois não era um filme, cara. Vazamos pra longe e relaxamos. 

Enfim chegava minha hora de continuar alguma coisa de indefinido em mim, ou o reforço de convicções, ou nada também.

No fim tudo se esfuma.

Tudo começa e termina na mente humana. Aristoteles causa isso no mundo. Com ideia de fazer definições. Mas como abrir mão de definições mínimas e administrar tudo? Foram perguntas que fiz a um monge/oráculo/ amigo que encontrei.

Também ouvi de uma moça que por mais que seja muito fácil escrever que é preciso espalhar o amor. Reconhecer o amor nos momentos, no agora. Açucarado, mas posição de resistência à apatia. Repita o amor, rapaz! E vou repetir, meu bem.

E acabou sendo esse o filtro, teve uma participação importante de 3 gatos. Mingau, Minnie e Gato. Meu salve pra elas.

No mais redescobri em mim uma coisa de acreditar que sempre pode haver uma água de azul mais luminoso e interessante. A coisa é não deixar de acreditar que podemos ver beleza nas cores surradas do cotidiano - a perene e insuspeitada alegria de conviver, diria Carlos. Tem sempre alguém pra testar sua fé, mas acho que o libelo (juridiquês, mas não lavajatês) de continuar com o voto de confiança nas pessoas ainda vale.

Vale, sim.

Depois de muito, mas ainda aqui dando braçadas no mar que pode ser da cor que eu quiser se eu me lembrar de apreciar,

 Thiago.