terça-feira, 19 de agosto de 2014

While falling or rising again:

Tudo bem, querido
Dalton Trevisan

Ah, é? Você me liga: Oi, tudo bem? Estou terminando. Entre nós, sim, tudo acabou. Lindo enquanto durou. Agora acabado. Para sempre. Espero que sejamos amigos. Que história é essa, cara? Acabou, pô nunhuma. Um longo ano de paixão e loucura, de repente, oi, tudo bem, o fim de tudo?

Pra mim nada acabou, ô louca. Só do teu pouco juízo para ser tão cruel. Ingrata e desgracida. Oco no peito, ninho de peludas viúvas-negaras. Ainda ontem nua e perdida nos meus braços, o teu grande, etern, único amor. E hoje: Oi, querido, tudo acabou.  Corta essa, cara. Dó não sabe o que é? Em ´perdão nunca ouviu falar? Nem aviso nem nada – é o fim tudo acabou­ –, o coração esfolado vivo com navalha sem fio. O amor doido de um ano não se acaba com um tiro na nuca.

Na hora fui machão. “Tudo bem, se é o que você quer. Claro, ainda amigos, seja feliz.” Assim que você desliga, mãezinha do céu, o olho cegou, a língua enrolou, a perna falhou, o meu nome esqueci. Quer tudo bem, que nada. Pô nenhuma. Aqui estou plantado de quatro, ganindo para a lua vermelha dos amantes desprezados. Nada acabou, meu amor que era grande ficou maior, transborda do meu peito, sai pela janela, explode a cidade em sardas ardentes, uivos de dor, borboletas amarelas.

Durão, sim, às duas de uma tarde de sol. Nunquinha que àstrês da noite escura na alma, eu, a última das baratas leprosas. Agora agonizante na velha cama, o colchão furadinho de agulhas de gelo, o travesseiro de penas e brasas vivas. Única imagem: você perdida e nua nos meus braços. Única idéia: nua e perdida você nos braços de outro. Atropelo uma prece entre berros do ódio que espuma. E o maçldito pernilongo da insônia, oi, querido, tudo bem?  Me enfiando a faca no coração ainda me chama de querido. No peito, não, revolve a ponta fininha nas costas, assim dói mais.

Tudo bem, uma merda. Tudo mal, nunca esteve pior, desde a hora do famoso recado. Assim acaba o amor jurado de um ano inteirinho? De um telefone público, entre zumbidos e vozes, desculpa, querido, não posso falar, tem gente esperando. Nem a consideração do falso olho azul na cara. E se caio duro e mortinho, ao ouvir a sentença de morte? Te dispensava assistir à execução, o tiro de misericórdia na nuca. Misericórdia, pô nenhuma. Sabe lá o que é, cara?

Egoísta e pérfida, só uma bandida capaz de oi, tudo bem (e, no mesmo fôlego, decerto sorrindo o tempo inteiro), tudo acabou, querido, é o fim, não me procure mais, se me vir na rua (nos braços de outro?) finja nunca me conheceu, assim a gente não sofre. Não sofre, a gente, pô? Fale por você, sua cadela. E a mão suada e fria? A língua no sal? O vidro moído nas entranhas? a tremedeira no pé torto? Aqui estava numa boa, de repente o bruto murro na cara, espirra olho, sangue do nariz, caco de dente – e tudo bem, vinagre e fel, a broinha de cinza fria? Dá um tempo, ô cara. Isso não se faz. Não é assim que um amor acaba. Com o tiro na nuca, a volta do parafuso nas costas, o soco na cara.

Machão, eu? O mais reles dos ratos piolhentos do amor. Sem honra nem palavra, por mim não respondo, todo me ofereço à vergonha e humilhação. Lembra da aranha Você cortou com a tesoura as oito patas – cada uma ainda quis andar sozinha... E se distraiu a vê-la desfiar do ventre o recheio verde. Essa aranha roxa, ali no piso branco sou eu. Mudo me retorcendo de tanta dor. Deliciada, eu sem braço nem perna, debaixo do teu sapatinho prateado? O meu desespero goze à vontade. Tudo menos oi, querido, acabou o nosso caso.

Pô que acabou. E eu. Ô cara? Sem você, o que será de mim, já pensou Não tem peninha? Eu morro, sua puta. Por você eu grito três dias sem parar. Me dá um tempo. Qual é a tua, cara? Como pode, até ontem me amava e hoje tudo acabado? E os teus bilhetes de juras eternas, as letras borradas de fingidas lágrimas? A isso chama de amor? Me beija na boca e no mesmo suspiro me acerta o ferrão de fogo. Tudo eu aceito, só não me deixe. Aqui na maior desgraça, não ouve meu soluço e rasgar de dentes? Me dá um tempo, cara. Um mês, uma semana, um diazinho só.

Já não me quer? Tudo bem. Basta que eu te olhe, nem chego perto, do outro lado da mesa. Cafetina de corações solitários. Ó estripadora de alminhas líricas. Vendo o teu desprezo pode que ganhe coragem e força. Com as mãos arranco o próprio coração pelas costas.

Meus ossos já se desmancham, deixo cair o garfo e a xícara, puxo da perna esquerda. Me repito, eu? Pudera, no ouvido esse bando de de baitacas gritando sangue, me acuda, inferno, eu morro. Dá um tempo, cara. Não assim, não para sempre: o fim do mundo às duas e quinze da tarde. Em vez da trombeta e a explosão, uma voz alegre no telefone público. Tudo bem, sinto muito, desculpa e obrigadinha.


Sente muito, você, a maior das assassinas. Tudo bem, pô nenhuma. Não tem obrigadinha. Não tem desculpa. Quero você inteirinha de volta. Orgulho já não tenho. Merda para o orgulho. A paz dos cabelos brancos até essa me deixou. Entre você e o amor-próprio, escolho você, prefiro a abjeção. Só peço último encontro, duas palavrinhas. Por você eu morro todo dia. Pelo teu amor sou morto cada hora. Deixa te ver, sua maldita, uma vezinha só. Ai, por favor. Minha santinha querida. Por favor.

*
Sem mais.
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PERAÍ!! Avec de + :))

Incrível é a similaridade das reações que temos quando eles nous quittent / when we are dumped; quando levaos o fora, ain't it, Jack?
 
Peut-être, Maybe so

Thiago.

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