terça-feira, 7 de junho de 2016

in intimum sui


Olhos fechados à noite. Cama, areia, ventos quentes, tormenta.

Solto na vastidão do eu. Dentro desse eu. Um nada, coisa alguma coisa de relevante no cálculo do universo.

Na negação explícita e sem emoção da existência da entidade superior que dá sentido ao dilema de ser solto na vida, me projeto em um abismo sináptico. Caio muito rapidamente em uma junção de emoções, líquidas, densas, quentes até chegar no ponto em que estaciono.

A projeção da meditação pára, por preguiça ou pelo sucesso em conseguir atingir um estado de equilíbrio (homeostático diriam os apegados ao método). Lá, naquele lugar de apenas consciência, quando cessa o esforço de entender as sensações e impressões em símbolos de representação - como são a nossa linguagem, civilização e valores -  eu quebro o transe e me pergunto se este relance de suspensão etérea é aquilo que se costuma chamar de sobrenatural, religioso e ritualístico com relação a entidades acima do humano.

Cético e chistoso da superstição à la Stevie Wonder, eu consigo racionalmente e, portanto, fugindo ao pesado exercício de meditação elencar as preferências que me fazem enxergar um sentido em estar solto na matéria. Traduzindo as correntes elétricas entre átomos no lado B de uma pequena galáxia, marginalmente localizada em um Universo ou em expansão ou que já se retraiu mil vezes ou que talvez seja apenas um dos lados de folha de papel carbono na oficina multifacetada e cubista que pode ser a existência, cá me encontro. E aparecem em ímpetos a inspiração dos pais, amigos, uma piada inteligente e original que fez aquecer este peito velho de eras por um momentinho ao menos, a fuga de um soco, a falta de coragem pra ficar e lutar, o gosto de vinho tinto e aquela sensação boa do final do alongamento, entre outras besteiras que fazem um cabra se apegar à sua existência.

E lá, quem está? Você. Como ideia, como conceito, como possibilidade ou perspectiva. Uma cor, um cheiro, uma luz? Teus efeitos me fazem pensar como um viciado sem lógica na possibilidade de te tocar se eu me esforçasse o bastante, .

Talvez em meio às sinestesias do sistema límbico eu esteja me auto-iludindo, mas consciente disso e rindo de minha ingenuidade tento te fazer vibrar nesses acordes  profundos de mim. Sinto cócegas nos pés pela confusão de estimular cargas em lugares pouco usuais da cuca.


Foi assim que tentei chegar a você na distância, talvez como um suspiro, talvez como uma coceira no nariz ou um carinho no cabelo, ingênuo e sincero antes de acordar.

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