Aí ela virou pra mim e perguntou como é que vc anda
se sentindo nesse estado de suspensão etérea do mundo. Digo etérea de um dos
costumes feios que tenho. Pode ser que eu queira enfeitar. Mas também tem o
lado da tentativa de sinestesia, de misturar sentido e sentimento humano, lugar
e sensação eu em um lugar dialogando com você sobre alguma coisa, suspenso,
etéreo...
Então, me sinto mais e mais em contato com pedaços
de um eu que mostrava seus impulsos na emulação de mundo que chamamos real.
Aquela coisa, quando vc pode fazer um reboot, fica claríssimo que em nos resta
um âmago de coisas e caem os enfeites. Que enfeites? As emulações de
preocupação, the fucks you don't even imagine you give.
Então EU ACHO QUE se soltar no mundo, pedindo
respostas à poeira e em algum momento sem certezas, funciona como um filtro.
Mas filtro de quê?
Peraí que eu te explico, mas não me leve a mal, ok?
...
Eu tava saindo da redenção. Satisfeito. Era o
quinto treino de corrida e funcional da semana. Fim de um ritual consolidado
por mim nos últimos 8 anos.
Depois de fazer todos os alongamentos o baratinho
natural bateu. Então, tava tudo legal. Beleza. Fim do break. Vamos tomar um
banho e voltar pra luta. Tentar arrumar essa bagunça de vida.
Respira fundo, ok? Vamo lá!
Nisso passa um maluco correndo.
E me gritam: Ajuda aí, cara! É assalto.
Eu tava tão tranquilo que por uns segundos não me
engajei na treta.
Depois veio um moleque e me pediu pelamordedeus que
ajudasse, tudo isso em um intervalo de 40 segundos.
Run, rabbit!
Fui nessa!
Eu mais dois companheiros atrás do doido ladrão que
jogou mochila e faca enquanto virava a esquina.
Estava um pouco cansado do pós-treino, mas lembrei
de jogar os braços e as mãos pra aproveitar o impulso, detalhe aerodinâmico que
o Bolt domina muito bem.
Deu boa. Alcançamos o vagabundo. A materialização
do antagonismo social. Terror do lumpen, do sofredor e do burguês. aqui é passe
livre.
É nossa vez de cobrar, Rubem. Dei um leve chute no
joelho esquerdo do cabra e quando ele se desestabilizou os outros dois camaradas
já chegaram chutando. Fomos à forra. Eu peguei ele pela garganta dando sermão
moralista, perguntando o porquê de fazer aquilo se era novo e podia trabalhar,
sair de casa cedo e batalhar pela vida.
Mentira. Não deu tempo. A gente chutava ele na cabeça,
nas costelas e jogava o peso todo dos golpes nas articulações.
Algumas senhoras de bem que acompanhavam o episódio
desde o parque passaram para bater com
Suas sombrinhas.
Alguns senhores paravam o carro e também chutavam o
bandido. Eu fiz isso várias vezes apertei o pescocinho dele e ouvia um barulho
meio de traqueia, meio de osso estralando e olhava para os seus olhos serenos
na hora da sova. No mais eu chutava, chutava e chutava. Quando respingava o puz
e aquele chorume de escória que eu ouvia o apoio de meus comparsas que se
multiplicavam e meu receio se esvaía: Fora, fora fora fora fora!
Ai que lindo!
Em algum momento atingimos o clímax da nossa
manifestação em defesa de nossa convicção de bem, tínhamos a prova de que ele
tinha feito um crime e merecia só uns sopapos pra aprender a lição.
Foi aí que aconteceu, da poça de sangue que tingia
a rua inteira emanava um brilho.
Em minhas mãos eu via. Nos sapatos sujos de sangue
dos paladinos da honradez E Também na boca das senhoras que tinham mordido as
orelhas, os olhos e o falo do bandido que agora parecia uma massa disforme. Mas
haviam muitos membros, muitos pênis, muitos olhos, muito sangue.
Nada saciava aquele pentecostes de forra do senso
comum.
Passado um tempo, depois de serpentes saírem daquelas
entranhas expostas, cantou-se o hino nacional, delatou-se o caso pra não dar
problema pra ninguém, cozinhou-se aquela carne de segunda e depois de muitas
selfies do processo a rua se limpou.
Está linda e pacificada. Acho que agora alguém
poderia pensar em
Abrir uma franquia por ali. O lugar vai ganhar
valor depois dessa. Bora aproveitar, pq agora tá top.
*
Esse o feeling.
E aí alguma coisa na minha cabeça. Um impulso me
coloca em movimento.
Apostas feitas, foi-se tudo pra escanteio. Bora
achar um buraco pra cavar enquanto isso.
Iniciei então aquele período que chamei de filtro.
*
Meus braços em tom alaranjado alavancam meu corpo
embaixo de águas negras e diamantinas. Ali ficava tão evidente o antagonismo
tanto do rio quanto de minha alma.
Pude rapidamente contemplar a ideia de cair
nas trevas e em seguida a de subir pra luz. Este baque de cores mexeu nos meus
viscerais medos, desejos e tédios.
Estou na Chapada Diamantina, lugar de jornada
pela terra, por si e com companhias. Aqui alguma coisa acorda e vai ver o que
há em volta.
*
Não estava sozinho. Não estamos sozinhos. Saímos ao
sol independente do relógio marcar 2, 10 ou 5.
*
A coisa, meu chapa, é que fui contaminado pela
chapada.
A generosidade herbal
Técnicas de negociação
O contato profundo
Mexeu
Reverberou
Ni mim. (“em mim” bem popular)
Despertei um coração que ainda pode bater muito
forte e enxergar a beleza muito forte dentro de mim e dos outros
Qualquer tropeço
Ou intervalo
É parte de um processo
Ou convite das representações teológicas de nossas
contradições e dúvidas.
E um papo de dentro
Outros tons de azul eu diZia.
Expectativa
Luz
Mais luz
*
Foi forte.
Pra Cada qual com a sua intensidade e tipo de
descoberta.
Poucos dias depois estava sendo tratado por sheik
por estar ao lado de duas mulheres na Praia. No calor de uma barganha por
cadeiras com a duração de dois minutos e que terminou na porrada.
Estética interessante, a da briga espontânea – umas
porradas interessantes e um câmbio de narrativa muito abrupto, pois não era um
filme, cara. Vazamos pra longe e relaxamos.
Enfim chegava minha hora de continuar alguma coisa
de indefinido em mim, ou o reforço de convicções, ou nada também.
No fim tudo se esfuma.
Tudo começa e termina na mente humana. Aristoteles
causa isso no mundo. Com ideia de fazer definições. Mas como abrir mão de
definições mínimas e administrar tudo? Foram perguntas que fiz a um
monge/oráculo/ amigo que encontrei.
Também ouvi de uma moça que por mais que seja muito
fácil escrever que é preciso espalhar o amor. Reconhecer o amor nos momentos,
no agora. Açucarado, mas posição de resistência à apatia. Repita o amor,
rapaz! E vou repetir, meu bem.
E acabou sendo esse o filtro, teve uma participação
importante de 3 gatos. Mingau, Minnie e Gato. Meu salve pra elas.
No mais redescobri em mim uma coisa de acreditar
que sempre pode haver uma água de azul mais luminoso e interessante. A coisa é
não deixar de acreditar que podemos ver beleza nas cores surradas do cotidiano
- a perene e insuspeitada alegria de conviver, diria Carlos. Tem sempre alguém
pra testar sua fé, mas acho que o libelo (juridiquês, mas não lavajatês) de
continuar com o voto de confiança nas pessoas ainda vale.
Vale, sim.
Depois de muito, mas ainda aqui dando braçadas no mar que pode ser da cor que eu quiser se eu me lembrar de apreciar,
Thiago.
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