Hoje, enquanto caminhava, encontrei-me ao lado com um senhor idade. "Como é simpático!", logo pensei. Resolvi estender a mão daquele jeito debochado, que não leva em conta o medo a incrteza das pessoas quanto a acenos de estranhos no meio da cidade.
Sua acompanhante me lançou olhares pouco amigáveis enquanto aquele homem baixo, de pele escura cabelos já brancos tentava comigo trocar um "dedo de prosa". Disse: "Não é fácil!" Repliquei tentando animá-lo: "O quê que não é facil?".
Continuou na de que a coisa não estava fácil enquanto eu tentava dar-lhe alguma força. "Não tá facil pra ninguém, e é por isso que deixaremos a peteca cair, meu senhor?".
Pouco me animei com sua resposta. Me contou já ter 80 anos e isto era tempo demais no mundo, que estava cansado e assim se afastou. Olhei em volta e notei um enorme contingente de pessoas cansadas.
Então me vem à cabeça, porque eu não estava tão cansado assim? - Só pode ser por teimosia!
Fica a minha intenção de ajudar aquele senhor. Desejo-lhe o tão almejado conforto e penso na carência de tantos outros velhinhos como aquele, vividos, cheios de histórias e vítimas do cansaço.
Para dar um pouco de conforto àqueles que se sentem pressionados por este cansaço da alma - seja lá por qual motivo - eu dedico este texto de Rubem Braga:
Meu Ideal Seria Escrever...
Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria -- "mas essa história é mesmo muito engraçada!".
Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.
E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".
E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".
E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.
A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.
Abraços,
Thiago.
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