Não me atrevi a falar con usted naquele dia e sabes bem o motivo. Mas eu devo admitir que não estava bem, havia pego um desses vírus da gripe que levam muitas pessoas. Aquilo me deixou cansado e enfermo.
Eu mal me animava e retornava àquele estado letárgico, chegando a não querer sair do chão por um instante. Melhorei de um dia para o outro após ter recorrido aos serviços médicos recomendados por nossa organização civilizacional, sem pensar se valia a pena seguir com tudo isso. Do jeitinho que os médicos gostam, meu bem.
E digo, nada como uma doença para percebermos bem quem somos de fato. Havia o suporte de amigos em meio a sonos delirantes, uma inusitada ausência de apetite e uma falta de disposição para pensar. Um emaranhado de palavras dispersas e pensamentos soltos.
Sim. Aprendi muito nos últimos dias enquanto navegava por outros cantos. Há quem diga que caí doente por você, em chiste, claro - e também não direi que não tenha sido. Confesso que, com as devidas ressalvas, deixei-me levar. No entanto, não cheguei a pensar em reportar-me a pessoa alguma, estava tudo muito bem, ora bolas! Talvez não tivesse sido a hora.
Aquela espontaneidade e vontade de dizer as coisas é coisa minha, que aprendi nos últimos tempos, pra não deixar nada por dizer, nada engasgado - um problema constante em meu convívio nos últimos tempos. Pode assustar, não nego, mas fiz!
Quero que saibas, que para mim fostes uma outra jóia (e de luxo!). Desde o momento em que te vi brilhar só quis ter-te em minhas mãos. Até mesmo comparo as ocasiões, como a primeira, quando passei por ti como se passa em uma vitrine e nos outros momentos em que tu te mostrastes. Bem entendes...
Já conheces o texto que virá abaixo.
No mais eu digo, continuo en train de roder sur la tempête tout seul, mas é a primeira vez em que encontro um um caminho nessa falta de lógica ou de senso. A primeira vez em que me sinto seguro em não pensar no que está por vir. E que venha!
Aí vai o texto:
Rubem Braga
Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá.
Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.
Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio — você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.
Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.
Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde - torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.
Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.
Rio, abril de 1952.
Texto extraído do livro "A Borboleta Amarela", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1963, pág. 145.
http://www.youtube.com/watch?v=cmC3DROrBgo
Beijos pras prendas, com muito carinho e só para elas,
Thiago.
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